quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Sócrates, o artista

Bueno *
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Está rolando na ESPN o documentário “Sócrates, o artista”, que será reprisado neste sábado, 7 de dezembro. Este filme começou a ser produzido no final do ano passado. Recebi aqui em Ribeirão Preto, a pedido de Gustavo, filho de Sócrates, e fui guia de uma equipe da ESPN Internacional, com sede em Madri, na Espanha. A produção já estava no Brasil havia duas semanas para captar material. Entre eles havia um apresentador de TV de nacionalidade argentina, e nos entendemos muito bem, ele até falava bem nossa língua e sabia tudo sobre o Brasil, principalmente sobre o Doutor. Do produtor, que era quem dava as cartas, eu entendia alguma coisa, era espanhol, seu nome é Martinez.
Marcamos nosso primeiro encontro no Pinguim do Centro, o tradicional, só que eles chegaram antes do combinado, até picamos um cartão lá e eles não economizaram elogios a nossa água que passarinho não bebe. Ficamos de voltar à noite, mas o bicho pegou, eles não queriam perder nada que pudesse enriquecer o material de que precisavam, estavam com muita pressa.
Fomos até a Universidade de São Paulo (USP), onde o Doutor cursou medicina. Observaram cada detalhe por onde nosso craque caminhou e depois foram visitar familiares do Magrão, o campo do Botafogo e, já no final de tarde, com a noite já nos abraçando, fomos ao Empório Brasília, bar que frequentamos por muito tempo, até porque nessa época Sócrates morava a poucos metros dali, na esquina de baixo, no Edifício Atlântico Sul. Era em seu apartamento que ele trabalhava escrevendo para revistas internacionais e nacionais, também estava empenhado em um livro sobre futebol. Dizia que primeiro o lançaria na Itália, depois no Brasil.
Magrão, ao terminar sua tarefa, me ligava marcando encontro sempre para as seis horas da tarde, no empório citado. Ali eu vi o Doutor escrever centenas de poesias, ali nós compusemos muitas músicas, ali fomos felizes, ali eu posso dizer com enorme saudade no coração que fui muito feliz, pois convivi com este ser humano que poucos tiveram a oportunidade de conhecer como eu conheci.
O bar, na parte de dentro, não tinha mesa por falta de espaço e elas eram espalhadas pela calçada. Márcio Palandri, o dono do bar, homenageou seu mais ilustre frequentador com uma dessas mesas, a do Dr. Sócrates, e até hoje, na parede ao lado, tem dependurado, entalhado em madeira, um distintivo do Corinthians e, mais abaixo, uma foto do Magrão com a camisa da Fiorentina. Márcio mal abre o bar e a mesa, como num passe de mágica, fica ocupada, são fãs de tudo que é lado que querem, por um instante, desfrutar um pouquinho daquele espaço que Sócrates frequentava. Era por ela que os espanhóis buscavam, fizemos demorada matéria ali.
Em seguida fomos para meu apartamento, minha sala é enorme e eles ali montaram um verdadeiro set de filmagens, com câmeras deslizando por sobre aqueles trilhos... O espanhol, quando viu o material que eu tirava de grandes envelopes onde guardo dezenas de escritas do Sócrates –  são poemas, letras de músicas nossas – , aguçou o olhar, principalmente por causa do tipo de papel utilizado: eram guardanapos, comandas de bar, marcadores de chope, aqueles papéis em que os maços de cigarros vêm embrulhados...
Martinez estava tão entusiasmado com tudo e começou a falar algo em espanhol que o argentino traduziu: disse que eu tinha uma preciosidade nas mãos,um verdadeiro tesouro cultural. Fizemos depois uma longa entrevista, passei para as mãos deles farto material sobre Sócrates e nossos 18 anos da mais sincera amizade.
Como acabamos muito tarde, o chope dançou. Na manhã seguinte os levei ao Cemitério Bom Pastor, onde repousa o corpo de Sócrates ao lado do de seu pai, Sr.Vieira. Ali coletaram o material que faltava para este documentário que está sendo exibido mundo afora com vistas à Copa do Mundo de 2014 e que tenho a honra de nele estar. O argentino me contou que eles produziram mais de 50 horas de gravação para tirar uma, fico imaginando o trabalho que teve o editor. Tudo por “Sócrates, o artista”.
 
* Cantor e compositor /

Casamento com homem é muito melhor

Maiferlaydson deu uma bicada no copo de chope e anunciou: "Pra mim chega! Agora vou casar é com homem!".
Todo mundo levou um susto. Aguinaldo, ao meu lado, quase engasgou com o pastel da Mercearia Santa Ignoranza, onde a gente se reúne pro happy hour.
"Como assim 'vai casar com homem'?!", perguntamos eu e Aguinaldo em coro.
Aquela informação era de fazer o Marco Feliciano correr pra se esconder no armário. Apesar do nome (a mãe adorava musicais), nosso amigo Maiferlaydson é heterossexual convicto. Não apenas convicto, mas também praticante. Passou o rodo na Vila Madalena inteira, adentrou o Alto de Pinheiros e já estava subindo para a Lapa quando a Leninha, sua esposa, perdeu a paciência. O casamento de 15 anos foi para o brejo e Leninha foi pra casa da mãe pedir colo, enquanto Maiferlaydson saiu dando colo para toda mulher que passava.
E agora ele decidira mudar de time? Casar com homem? Que novidade era aquela?
"Você trocou a esfiha pelo croquete?", perguntou o Aguinaldo no seu linguajar algo peculiar, herança da infância proleta na ZL.
"Qual é, mano?! Tá me tirando, Aguinaldo?!", esbravejou Maiferlaydson. "Não é nada disso não! Eu explico pra vocês!"
E então ele explicou. Foi mais ou menos assim: "Casar com homem é muito melhor. Por exemplo, eu quero tomar chope com os amigos. Mulher faz cara feia, reclama, emburra. Homem não! Vai beber junto! Se passa uma mulher gostosa e você faz um comentário qualquer, sua mulher vira uma fera. Homem não! Comenta junto! Quer dizer, tem muito mais vantagens...".
A Mercearia Santa Ignoranza parou para ouvir o discurso. Dois escritores interromperam o grande romance da sua geração só para escutar o Maiferlaydson. Quatorze roteiristas pararam de comentar "Breaking Bad" só para acompanhar o Maiferlaydson. Três jornalistas esqueceram completamente a crise do meio impresso só para compreender o Maiferlaydson.
E ele continuou. Explicou que as mulheres andam chatas demais. Tipo assim: quando a gente está dirigindo, elas ficam do lado pitacando: "Vira ali, não vira aqui, não ali, ih, passou!". Mas na hora do nheco-nheco, elas querem que a gente ache a porcaria do Ponto G sozinho! E sem GPS! Ah, faça-me o favor! Ponto G é igual ao continente perdido da Atlântica: dizem que existe, mas ninguém sabe onde é que fica.
E tem outra: quanto a gente goza rápido, elas reclamam. Mas quando são elas que demoram demais, elas também reclamam. Quer dizer, nós, infelizes, somos responsáveis por dois orgasmos: o nosso e o dela! O dela tem que ser rápido, o nosso deve ser lento. É, né, bebé? Mamar na... opa, vamos interromper o raciocínio que o jornal é de família.
Mas ainda tem mais, freguesa. Por exemplo: elas se juntam e saem todas serelepes para fazer Marcha das Vadias, não é? Agora experimenta passar por uma gostosa na rua e murmurar "úúú... que vadia!". Experimenta pra você ver só uma coisa. Você vai virar meme no Facebook. E o aplicativo Lulu ainda vai dizer que você tem dimensões mais ridículas que QI de BBB.
Quando o discurso do Maiferlaydson acabou, os dois escritores tinham abandonado a literatura já que, afinal, só estavam nessa pra pegar mulher. Os 14 roteiristas choravam mais emocionados do que no episódio final de "Breaking Bad". E os três jornalistas nem lembravam mais que o papel da imprensa era só sobreviver ao fim do papel.
Todos nós acabamos por concordar com o Maiferlaydson. Homem é muito melhor mesmo. O único problema é o design masculino, que é um desastre. Nem se compara às formas harmoniosas e esteticamente superiores da fêmea da espécie em geral e da Fernanda Lima em particular.
"Mas e daí? São lindas e gostosas sim, mas quem aguenta tanta mulher pé-no-saco?", concluiu Maiferlaydson, enfiando uma linguiça na boca.

Linguiça calabresa fatiada. Parem de pensar besteira, cazzo.




sábado, 23 de novembro de 2013

Sócrates, o taxista e o beduíno

Bueno *
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Queridos amigos leitores, tenho muitas histórias sobre Sócrates para botar no papel, mas acho esta genial e decidi reapresentá-la como uma forma de reviver a memória deste que foi e ainda é um ídolo mundial. No próximo dia 4, fará dois anos que ele “viajou”... A saudade que sinto do amigo, só eu sei...
“Por ser amigo de Sócrates, muitas pessoas me procuravam para contar histórias que aconteceram com elas e para que eu pudesse levar até ele. Na verdade, elas gostariam de se aproximar do Magrão, mas não o faziam por receio de não ser bem recebidas pelo Doutor da bola, sem imaginar a doçura de pessoa que ele era. Vou narrar aqui duas histórias desse ídolo mundial.
Digo isso porque, muitas vezes, estávamos juntos e o via atender ligações de toda parte do planeta: autoridades italianas, jogadores de seleções estrangeiras, cantores e músicos mundialmente conhecidos, pessoas superfamosas que até hoje idolatram esse ex-jogador de futebol que fez parte de uma geração de gênios. Várias vezes ouvi dele: ‘Buenão, eu joguei com Zico, Júnior, Leandro e Falcão, sabe lá o que é isso?’ E eu, na minha condição de mais um fã, sempre vejo passar na minha cabeça o filme daquela magnífica seleção.
Vou contar hoje dois casos envolvendo o nome Sócrates. Estava numa festa que acontece todo mês de maio na Fazenda Santa Estela, encontro nacional de sanfoneiros, e um rapaz de trinta e poucos anos foi chegando, pediu licença, sentou-se na minha mesa, disse que sempre me via em companhia do Magrão, era louco pela aproximação mas tinha receio. Queria contar uma história em que o Doutor da bola o salvou. Seu nome é Carlos, disse ser dentista em Franca, mas era de Ribeirão Preto e estava por aqui direto.
Agora, vejam vocês como Sócrates é ídolo mundial. Doutor Carlos foi fazer uma viagem a Toronto, no Canadá, e seu avião lá pousou de madrugada. Os passageiros foram esvaziando o aeroporto nos táxis e sobrou apenas um. Segundo nosso dentista, o taxista era um negro enorme e cismou de não levar nosso brasileiro, simplesmente se recusou. Como estava em terra estranha, doutor Carlos ficou na dele esperando pela volta de outro táxi. O tempo foi passando e nada de aparecer outro carro de aluguel. O taxista se aproximou e puxou papo em inglês, indagando de que país era nosso passageiro, que de imediato lhe respondeu na mesma língua: ‘Brasil!’
O taxista arregalou os olhos e disse: “Brasil???” E emendou outra pergunta... ‘Sócrates?’ Doutor Carlos sentiu firmeza e mandou de volta: ‘Sócrates é meu amigo’. Ele nem havia finalizado a frase quando viu o taxista apanhar suas malas e colocá-las no carro. Depois, conduziu-o a seu destino. No trajeto passou a fazer perguntas sobre nosso Doutor da bola. O brasileiro disse ser da mesma cidade do craque, que conhecia toda a família... O homem, maravilhado, passou a falar o quanto era fã do Magrão, tão fã que quando nasceu um de seus filhos colocou o nome inteirinho de Sócrates – e olha que o nome do Doutor é enorme. Imaginem o alivio do nosso brasileiro.
Outra história foi contada por uma senhora que esteve em situação idêntica ao brasileiro da primeira. Segundo ela, em uma excursão de professoras que fez para a África, um dos passeios era conhecer como viviam alguns beduínos no deserto. Ao chegar no local, o grupo de brasileiras se aproximou de uma daquelas barracas de lona rodeada de areia e o guia disse ao morador: ‘Essas pessoas são do Brasil!’ Novamente, a mesma pergunta de admiração: ‘Brasil??? Sócrates???’ E saiu caminhando e falando: ‘Sócrates, Sócrates, Sócrates...’ Em seguida, abriu um baú e tirou um pôster do Doutor com a camisa 8 da seleção brasileira, deixando todos boquiabertos. Ficaram surpresos ao testemunhar o quanto nosso craque era querido também naquela região do mundo.
Tenho muitas histórias do Doutor para contar, mas fica para outro dia. Ouvindo essas e outras, sinto um orgulho imenso de ter como amigo, afilhado e compadre o Doutor Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira Oliveira.”
 
* Cantor e compositor

sábado, 9 de novembro de 2013

Viola na parede

Bueno *
 
Escrevi esta crônica faz sete anos, mas como surgiram fatos novos, decidi reescrevê-la.
Nossa viola caipira tem um som apaixonante e dizem ela ter nascido em Portugal... Será verdade? Não sei, só sei que ela tem o som mais abrasileirado dos instrumentos que conheço e é abraçado a ela que um violeiro se põe a sonhar. Com suas mãos mágicas, produz sons que invadem o silêncio para ouvir seu lamento.
A viola tem várias afinações: em ré, em mi, cebolão, rio acima, rio abaixo. Segundo JC da Viola, tem mais de trinta afinações... mas que instrumento apaixonante !!!!!
Num fim de tarde, eu estava numa loja de instrumentos na estação rodoviária e um senhor, morador de Terra Roxa e muito simples, havia acabado de comprar uma viola novinha. Como o lojista não aceitou sua velha viola no negócio, ele decidiu vendê-la. Era linda, perguntei quanto queria pelo instrumento e ele disse: “Entrego por R$ 50”. Eu tava duro, daí liguei para o Sócrates, que estava no Bar Brenos com o amigo Pedro Sergio, e ambos dividiram a compra da viola. Eles a deixaram comigo e nela ate aprendi alguns ponteados.
Certa noite, Sócrates recebeu a visita de dois amigos violeiros de Cássia dos Coqueiros, amigos do tempo em que ele e o doutor Said Miguel, hoje médico conceituado em Batatais, faziam residência de medicina naquela cidade. Os amigos eram Oscar e Ferlin, cantavam modas de viola e contavam histórias que Magrão adorava. No calor da cantoria, o Doutor da bola deu a eles a viola, mas ela estava em minha casa e combinamos de voltarmos a Cássia para levar o tal instrumento.
Continuei ponteando a viola por aqui, o tempo passou e a levei numa cantoria na casa do amigo Wander Ligabó. Não sei como a esqueci lá, e ele, de repente, mudou-se para São Paulo. A prometida viola foi no rolo da mudança e só em Sampa é que ele foi perceber. Olhem só esta história.
O craque Raí fez aniversário e Wander foi convidado, na festa estava também o mineiro Gabriel Guedes, amigo de Rai e Sócrates e filho do cantor e compositor Beto Guedes. Gabriel é um jovem carismático e multi-instrumentista, toca tudo e deu show de piano e violão encantando a todos.
No dia seguinte, Wander resolveu fazer uma cantoria em sua casa e convidou o jovem músico, que de cara aceitou, até porque ficaria em São Paulo por uns dias. Já na festa, Gabriel voltou a tocar piano até que Wander disse: “Gabriel, eu tenho um instrumento que duvido que você toque, é uma viola.” O músico disse: “Então traga a bichinha, vamos ver.” E Wander buscou a nossa viola.
Gabriel afinou as cordas e arrasou tocando até música clássica. Ficou apaixonado pela viola e perguntou a Sócrates quem era o dono... Magrão, rápido no gatilho, respondeu: “A partir deste momento é sua!!!” Gabriel nem acreditava que ganhara de seu ídolo aquele instrumento, disse que ela teria lugar de rainha em sua casa. A cantoria continuou e nossa viola voou para Belo Horizonte, cidade onde reside o músico.
O tempo voou como um raio e Gabriel criou um projeto em sua cidade para resgatar o nome “Clube da Esquina”, criado por Lô Borges, seu irmão Marcio Borges, Beto Guedes e Milton Nascimento. Gabriel comprou a famosa esquina e ali ergueu um charmoso bar cujo nome é Clube da Esquina, ali a cultura da cidade aflora, virou ponto turístico, tudo ao redor esbanja música. Numa das paredes há vários instrumentos dependurados, e entre eles reina a nossa famosa viola, presenteada por Sócrates. Fico muito feliz por ter noticias da velha companheira e um louco desejo de conhecer o Bar Clube da Esquina...
 
* Cantor e compositor

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Maquiadora de defunto

Bueno *
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Existe cada profissão que vou te contar, mas em todas sempre há alguém para exercê-la. Molhando a palavra no Bar do Bim, quando meu parceiraço Tião do Violão, um cara muito antena­do, perguntou-me sobre Luiz Roberto, meu neto, se ele ia prestar o Enem. Tião queria saber se o garoto já havia escolhido uma profissão. Disse ao amigo sambista que ele queria fazer engenharia, mas parecia estar mudando de ideia, pois, até pouco tempo, dizia adorar essa tal de matemática, base da profissão e matéria que se tivesse puxado pro avô, tava ferrado, mas que na atual fase a matemática andou causando emba­raço em sua cuca e que dois mais dois não estava mais somando quatro (rsrsrsrsr).
“Buenão”, disse ele, “hoje as opções são das mais diversas, ele pode escolher a rodo, estão surgindo centenas de novas profissões, como essa tal de engenharia mecatrônica, que nem sei o que é, mas muito se comenta.” “Olha, Tião”, disse eu, “deixe o barco correr, ele só não pode perder o trem da história, o que ele escolher estarei por perto apoiando.”
Com o cotovelo no balcão ouvindo nosso papo estava Cibim, irmão mais novo do Bim. Cibim é professor técnico na Universidade de São Paulo (USP), reconhecido como o quarto no Brasil na área de patologia. Disposto a entrar no papo, arrastou uma cadeira e aterrissou de copo e garrafa em nossa mesa, e ali danou a falar da sua profissão. Olha só, a gente ali, mandando ver aquele torresmo sequinho, bolinho de bacalhau, daí misturamos tudo com o Cibim falando como abrir um corpo humano para estudos dos futuros médicos.
Lógico que o papo estava tão interessante que eu e Tião aproveitamos para matar curiosidades. De cara, perguntamos a ele quais os procedimentos quando um corpo chega até eles para estudos. Cibim, cheio de autoridade no assunto, disse que eles injetam um liquido conservante que tem o nome técnico de fixador, cuja base é o formol, na artéria femural do cadáver. O conservante percorre o corpo todo, depois o mergulham em um tanque do mesmo liquido, e ali o deixam por no mínimo um ano para depois passar a usá-lo.
Ele disse que tem corpo lá com mais de 30 anos e em perfeito estado. Cibim desfilou todo seu conhecimento sobre detalhes do corpo humano e eu fiquei de cara: onde cortar, como cortar, localização de veias e músculos, poxa, como ele sabe das coisas. Essa tremenda aula mereceu um brinde e mais tira-gosto e Cibim arrematou: “É, Buenão, nossa anatomia é a coisa mais linda, amigo...”
Por falar em defunto, continuei o papo e lembrei-me do Gersinho, que hoje trabalha na Secretaría Municipal de Planejamento. Certa vez, arrumou emprego numa funerária e entre suas funções estava a de arrumar o morto no caixão. Fiquei admirado, pois ele era muito medroso e agora ia mexer com morto!!! Um belo dia, chegou uma velhinha magrinha para ele dar um trato, ela tinha morrido de braços abertos, e como havia passado muito tempo, seus nervos estavam rígidos. Foi uma batalha cruzá-los sobre o peito.
Com muita luta, ele conseguiu amarrar as mãos da senhora, cruzando-as sobre seu corpo naquela famosa posição de morto. Gersinho virou-se para pegar algumas flores afim de enfeitá-la e, não sabe como, as mãos dela escapuliram dando-lhe um tremendo tapa nas costas... ele levou o maior susto de sua vida, saiu na maior correria sem olhar pra trás e nem voltou na funerária pra receber o salário. Gersinho é gente fina, é meu afilhado e grande músico.
Outro dia vi na TV uma matéria sobre profissões que pouca gente sabe que existem, uma delas é a de maquiadora de defunto... A moça se dizia superfeliz, pois faz a alegria das famílias num momento tão difícil. Arrumar homem é simples, disse ela, mas mulher requer mais técnica, ela arruma os cabelos, faz as sobrancelhas, passa base e baton, deixando-as tão bonitas que até parece que estão indo para uma grande festa (rsrsrsr). E olha que o cachê vale a pena, arrematou
Histórias... Temos muitas...
 
* Cantor e compositor

A HISTÓRIA DA FOTO MAIS FAMOSA DOS BEATLES

HÁ 44 ANOS, OS BEATLES TIRARAM A SUA FOTO MAIS FAMOSA, CAPA DO ÁLBUM "ABBEY ROAD".
TODA A AÇÃO FOI PLANEJADA PELO PAUL, CONFORME DESCRIÇÃO ABAIXO:
  
Era 8 de agosto de 1969 quando os Beatles se reuniram para o que viria a ser um dos seus últimos ensaios fotográficos. Não o último de todos, mas o último a ser usado em um álbum.
Nessa época, o Paul já decidia as coisas, mas nada era muito fácil. Reunir todos os membros da banda era difícil. Sair, agendar horários, nada disso acontecia sem uma boa dose de desgaste. Ali, talvez, o único Beatle que ainda queria ser um Beatle era o Ringo.
Mas o Ringo não conta.
Por isso, foi do Paul a ideia e iniciativa de fotografar naquela exata faixa de pedestres.
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Rascunho original do Paul para a famosa foto
O encarregado da missão foi um fotógrafo escocês amigo do John e da Yoko, chamado Iain Macmillan.
Antes de começar, ele tirou uma foto da rua vazia.
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Linda McCartney também esteve lá e tirou algumas fotos dos preparativos, enquanto o quarteto aguardava o ensaio começar.
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Foram tiradas seis fotos oficiais, para entrarem no álbum.
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Tentativa 02
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Tentativa 03
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Tentativa 04
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Tentativa 06
A escolhida, todos sabemos qual foi. A única na qual a formação estava perfeita, tudo alinhado, como deveria ser, como era habitual dos Beatles. Esmero nos últimos detalhes.
Paul decidiu pela quinta tentativa.
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A quinta tentativa foi para o álbum
A história fez sua parte depois desse evento. Ninguém imaginava que os Beatles chegariam ao fim alguns dias depois. Nem o fã mais pessimista, nem mesmo John Lennon – que cuspiu seu desejo de sair da banda em uma reunião sobre as ambições de George de se tornar um compositor com mais espaço.
De lá pra cá, todos os detalhes imagináveis já foram destrinchados. Nem mesmo o velhinho parado lá no fundo, passando como quem não quer nada conseguiu escapar. Até mesmo ele já foi encontrado, entrevistado e teve seus minutos de fama, só por estar ali.
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A placa do Fusca, de número LMW 281F, foi roubada repetidamente, até o carro entrar em leilão em 1986 e ser vendido por £2.530. Atualmente ele está no museu da Volkswagen na Alemanha.
Olha ele aí
Olha ele aí
Hoje, atravessar aquela faixa de pedestres é um evento, tornou-se atração definitiva para turistas do mundo inteiro.
Ninguém quer passar por ali e não repetir a icônica travessia.

sábado, 26 de outubro de 2013

Jorjão ‘pegador’ e a calcinha de renda

Bueno *
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Jorjão, desde muito pequeno, já se destacava em tudo que fazia. Nas peladas com a molecada era o primeiro a ser escolhido, era ele e mais dez. O pivete era o bambambam, muito habilidoso, tratava a redonda como um jardineiro trata uma flor, ele era daqueles canhotos geniais. Aliás, já me fiz essa pergunta muitas vezes: Por que os canhotos são craques diferenciados no gramado??? Jorjão ganhou este apelido no aumentativo pelo seu corpo de estrutura avantajada.
A vida foi passando e Jorjão transformou-se no maior galã da Vila Tibério. Boa pinta que era, passou de caçador a ser caçado pelas piriguetes da época, pois o cara era um conquista­dor nato, com a rapaziada era muito gente boa, amigo pra ninguém botar defeito, sempre de bom humor, sempre prestativo... Além do mais, dançava bem e nas brincadeiras dançantes que a galera realizava na Vila, as garotas chegavam a se revezar pra dançar com o pé de valsa.
Até na parte artística Jorjão dava sua palhinha, tocava violão e cantava muito bem, fazia serenatas pra cada nova namorada conquistada, e tudo isso fez dele um namorador de carteirinha. Mas seus romances não duravam muito tempo, o assédio era incon­trolável.
Nas  rodas de prosa no bar da esquina, Jorjão sempre dizia: “Gente, to pensando seriamente em não me casar, pois tá difícil encontrar uma garota que balance minhas estruturas, que me faça caminhar sem pisar no chão, enfim, que me encante.” Um dia, mal acabara de pronunciar tudo isso, entra no bar uma moça pra comprar chicletes, um tremendo avião, um boeing 747. Jorjão ficou meio que sem chão, paralisado. Assim como entrou ela saiu, deixando Jorjão meio que de boca aberta. O cara do bar disse que a bela era moradora nova do pedaço, veio de fora gerenciar uma empresa de cosméticos. Levantada a ficha da moça, Jorgão partiu para o ataque, e daí para a conquista foi questão de tempo, tempo suficiente pra ele passar uma borracha na ideia de não mais se casar.
Carol era o nome dela, se enturmou fácil. Casamento realizado, Jorjão baixou a bola, estava tão pianinho que a galera começou a sentir sua falta nas cervejas das sextas-feiras e nas peladas dos finais de semana, mas para os amigos o importante era a felicidade deste parceiraço. Devagar, ele acabou voltando, até porque Carol era muito liberal.
Um belo dia, Jorjão estava atrasado para um compromisso, e na pressa para encontrar sua cueca, acabou pegando uma calçinha da Carol, que estava misturada na mesma gaveta, e até disse: “Vou vestir a calçinha da Carol, ninguém vai ver mesmo...” E pá, lá foi ele... Ao atravessar uma rua, Jorjão foi atropelado e morreu e seu corpo foi para o Instituto Médico Legal (IML) para ser reconhecido por parentes.
Quando Carol chegou, quase caiu dura ao vê-lo com sua calcinha... “Não acredito!!!”, disse. “Jorjão com a minha calcinha, a que mais gosto com rendinhas cor de rosa!!! Mas ele nunca fez isso!!! Justo ele que dizia adorar me ver com ela...” Sabem como é, noticia ruim esparrama logo e esta vazou como rastilho de pólvora pela cidade...  Como pode o maior garanhão da Vila Tibério usando calcinha e, ainda por cima, de rendinha!?!?
Velório lotado, o maior quiproquó, os amigos incrédulos com essa história da calçinha que podia pegar até mal pra eles, uns até  pediam pra baixar ali um espírito que pudesse esclarecer esta roubada e nada... Jorjão foi enterrado deixando a plateia na maior sinuca...Será que Jorjão estava no armário????
Passado algum tempo, Cirilo, o mais chegado amigo do morto, foi até um centro espírita e Jorjão incorporou em um médium para esclarecer toda essa confusão, limpando sua barra de Don Juan e a paz voltou na vila com uma grande cervejada.
Agradeço ao meu amigo e ídolo Pelicano por autorizar-me a passar pro papel essa sua criação.
 
* Cantor e compositor

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Sabadell Flash Mob Orchestra - Best Coin Ever Spent


Vejam que lindeza de vídeo!!!



O tempo é um escultor

Bueno *
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E não é que é mesmo? O tempo é um grande artista, ele vai nos moldando dia a dia. Para alguns é implacável, detona o cara de uma maneira que até parece ser obra de um escultor de fundo de quintal. Para outros ele é generoso, capricha na obra.
Tião do Violão, meu parceiro de tantas, tem uma virtude da qual tiro meu chapéu: a de ser um bom observador, não perde nada que acontece a seu redor, tem também memória privilegiada. Ele rebusca coisas em sua cuca lá do nosso tempo de juventude. Foi justamente ele que levantou esta parada sobre o tempo. Estávamos no Bar do Bim, nosso amigo de ginásio, jogando conversa fora e cerveja dentro, quando passou na calçada uma mulher meio que detonada, na faixa dos 60, ela com seu um metro e setenta, mais ou menos, um pouco obesa e sua vestimenta em nada ajudava para melhorar o visual.
Tião bateu o olho e logo veio com essa: “Buenão... você viu quem é ela???” Disse: “Não me lembro, não, Tião.” E ele: “Cara, é a Marilda, a nossa mis do Colégio Eugenia Vilhena de Moraes. Lembrou agora???” E eu: “Karaca, meu!!! Não é possível, Marilda era um avião, uma gata por todos desejada, seu corpo era uma verdadeira obra de arte da natureza, como é que pode estar nesse bagaço, amigo??!!
Bim, com sua toalha no ombro, palito no canto da boca e que a tudo assistia, nos acompanhou até a porta, olhou a retaguarda da mulher e confirmou ser mesmo a Marilda, até disse que ela mora por perto.
Voltamos a nossa mesa, fizemos alguns segundos de silêncio e de repente Tião falou: “Buenão, veja o que é o tempo, ele é um ‘escultor de corpos’.” Emendei: “Tião, lá vem você filosofar de novo, amigo”. E ele:  “Buenão, lembro-me como se fosse hoje da Marilda desfilando na passarela da Cava do Bosque, com aquele maiô azul celeste, arrasando com a concorrente que também era linda, mas nossa mis levou dez em tudo.” “Tião”, disse eu, “bem lembrado, cara, naquele tempo tínhamos um amor inexplicável pelo colégio e nossos mestres, coisa que hoje em dia não mais existe, e aquela competição marcou época, fez história, movimentava a cidade, as emissoras de rádio davam a maior cobertura com transmitissão ao vivo, era um tempo em que a TV ainda gatinhava por aqui.”
Bim, antenado em nosso papo, lembrou: “Gente... mas que turma genial tínhamos no velho Vilhena, como esquecer Bebeto, Paulo Garde, Gilmar, o talentoso Heleno, que naquele dia na Cava do Bosque estava vestido de mulher, mal conseguia se equilibrar naqueles sapatos de saltos enormes, e juntos dançamos um samba de gafieira, levamos dez de todos os jurados, e aquele vestidinho que Heleno usava, se fosse hoje, seria como os das atuais piriguetes (rsrsrsrsrsrs)”.
Como dizia Gonzaguinha em seu lindo samba Mesa de Bar, imortalizado na voz de Alcione: “Mesa de bar é lugar pra que é tudo que é papo da vida rolar...” E é mesmo, é por isso que gosto de papo de bar, papo que às vezes surge do nada como esta história de hoje sobre o tempo e suas esculturas. Tem um samba de Nelson Cavaquinho em que ele diz: “As rugas já fizeram residência no meu rosto”. Vejam só que coisa linda o tempo agindo. O polêmico cantor e compositor Juca Chaves escreveu a canção A idade não tem culpa, uma critica aos homens já coroas que trocam suas esposas por meninas novinhas, perdendo o prazer de envelhecer ao lado da mulher amada, descobrindo no dia a dia uma nova ruga em seu rosto esculpida pelo tempo. Linda esta sua música, poesia pura.
Eu demorei 34 anos para compor pra minha esposa uma canção, pois queria que fosse a minha mais bonita música, daí nasceu Nossos Girassóis, que é nossa história. Na última frase escrevi: “E hoje... a neve tinge meus cabelos, a vida passa e sou cada vez mais apaixonado por você”. O tempo... o artista... E por falar em mesa de bar, combinei uma parada com o Chiavenato, mas estamos sem agenda (rsrsrsrs).
 
* Cantor e compositor

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Difícil explicar

Bueno *
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Muito me marcou uma imagem que rolou pelo Facebook, um registro do velório do ator Claudio Cavalcanti. Muitas pessoas levaram seus animais para dar-lhe adeus. Ele era uma espécie de protetor deles, até porque ocupava o cargo público de secretário da Causa Animal do Rio de Janeiro.
Entre cães e gatos, tinha até um galinho de nome Fred, acho que a dona ou dono torce pro tricolor carioca e homenageou o atacante batiuzando o penoso com o nome do camisa nove. Enquanto os animais se debruçavam sobre o caixão, o galinho Fred saracoteava pra lá e pra cá e a esposa de Claudio até comentou que ele deveria estar se divertindo muito com tudo aquilo.
Vi também nesta semana a imagem de um fiel cão na porta de uma delegacia de polícia. O dono havia sido preso e ele, em posição de alerta, só olhando porta dentro do DP sem nada entender. Na quarta-feira, mais uma imagem linda do reencontro de um soldado com seu cachorro após dois anos separados.  E nessa quinta-feira, em Salvador, outra imagem que balança qualquer um: pedestres tiraram um cão da enxurrada a menos de um metro do bicho ser engolido por uma cratera aberta no asfalto.
Abri a gaveta da minha memória e voltei mais de trinta anos, quando me vi buscando, na fazenda do meu amigo Francisco Faleiros, um filhote de pastor alemão capa preta. Foi o meu primeiro cachorro. De cara, dei-lhe o nome de Lobo, em homenagem ao cachorro do Vigilante Rodoviário, Carlos Miran­da, um de meus heróis. Lobo deixou-me um filho, Swat, lembrando a polícia americana. Swat deu-me Ringo, em homenagem ao caubói dos filmes de faroeste que tomava tiros e não morria. Ringo também se foi, mas deixou-me seu filho Rambo, em homenagem ao fortão que povoava a cabeça de meus filhos com suas aventuras. Rambo também já viajou faz uns dez anos, sinto saudades de todos e jamais esquecerei a fidelidade e o amor que deles recebemos, um amor que não se explica.
Hoje moro em apartamento e não posso mais ter cães, até porque não tenho quintal que acho essencial para o melhor amigo do homem. Dia desses cruzei com Alexandre, querido amigo, e sua esposa Daniela. Daí começamos a falar sobre este amor inexplicável dos cães por nós e até lhe perguntei como estava Gold, o cachorro que eles foram buscar em São José dos Campos, isso depois de muita negociação pela internet.
Alexandre, entristecendo seu semblante, disse: “Buenão, ele está com a mesma doença que matou o Paxá, sorte que descobrimos e ele está sendo cuidado. Vamos seguindo de braços com a esperança torcendo para que ele viva muitos anos”.
Gold é da mesma raça do Paxá, um são bernardo um pouco menor. Sobre Paxá, disse-me Alexandre que na separação de seu primeiro casamento, sua ex não deixou ele ficar com o cão. Ela morava em São Paulo e ele aqui, em Ribeirão Preto, sofrendo com a saudade que invadia seu coração, pois os dois eram inseparáveis.
Ela doou Paxá para um senhor, que depois de algum tempo lhe telefonou dizendo que desde que o cão foi morar em sua casa, o pobre animal não comia e que ele não era pra ser dele, pediu-lhe ainda que fosse buscá-lo.
 Ela ligou para Alexandre que imediatamente foi até Sampa. Já prevendo o reencontro com o amigo, levou água e comida na carroceria da sua Pampa e, ao se aproximar do endereço, baixou a tampa trazeira para recepcionar Paxá. Enquanto procurava o numero da casa, nem percebeu que Paxá já estava dentro do carro. Ele não sabe como, mas lá estava o danado tomando água e se alimentando... Alexandre me contava essa história e eu só imaginando esse momento lindo por eles vivido... Poxa !!! Quanta emoção!!!
Alexandre não se cansa de perguntar como Paxá percebeu que ele estava por perto, quantos sentidos tem um cão ao ponto de fazer isso tudo acontecer. Quando Paxá morreu, Alexandre postou no Facebook um pequeno texto despedindo-se do amigo... Hoje Gold é a alegria da família, recebe amor e distribui carinho, fica aqui nossa torcida de muitos anos de vida pra ele.
 
* Cantor e compositor

domingo, 6 de outubro de 2013

Bares da noite de Ribeirão, antes e depois!!!



 Avenida Nove de Julho esquina com Rua Garibaldi




 Está ao lado a UPA da Avenida Treze de Maio
 Ficava localizado na Rua Garibaldi, entre as Ruas Rui Barbosa e Campos Salles.
 Hoje é a área de lazer do edifício, que fica na esquina da Rua Rui Barbosa




sábado, 5 de outubro de 2013

Fez quarenta? Tá na hora de levar o dedão..

Bueno *
buenocantor@terra.com.br
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Não poderia escrever esta crônica sem antes consultar meu parceiro de serestas e boemias, Tião do Violão. Aproveitei para fazê-lo no último sábado, quando fomos fazer um samba na casa do Tony e da Elaine, que nos recepcionaram com muitas geladas e uma suculenta feijoada.
Na roda de bate-papo, aproveitei e tasquei a pergunta pro Tião: “Parceiro, quero que você me conte como foi sua primeira vez no urologista, como foi a dedada do doutor, não esconda nada porque vou colocar no papel...” Pego de surpresa, ele devolveu: “Pô, Buenão, para com issom cara.”
Emendei: “Não fuja da raia, não, Tião! Diga aí, meu velho.” Nes­sa altura Adalberto, Eduardo, Carlos, Marcelinho e Luiz Es­te­ves, todos com passagem “dedais” e mais que interes­sa­dos, passaram também a incentivar nosso seresteiro a comen­tar o acontecido. Tião, que já tinha tomado algumas, tratou de dei­­xar a timidez de lado e até passou a filosofar, se abrindo que nem paraquedas.
Disse ele: “Chegar aos quarenta, Buenão, até que é uma boa, mostra que chega a essa idade passou por fases das mais interessantes, fez todas as estripulias possíveis e impossíveis, mas tem lá seus revezes e acho que o pior que pode acontecer pra quem entra nessa idade é o tal de exame de próstata...”
E continuou: “Poxa!!! Que chatice, amigo. Minha primeira vez começou com o médico pedindo um exame de sangue, o tal de PSA. Resultado na mão, já no consultório, ele me mandou tirar a calça e deitar na maca, numa posição vexatória...”
Ele falava e a galera ali, na maior expectativa. “Daí o vi colocando luva e lambuzando o dedão de vaselina. Pensei: ‘Ainda bem que não é a seco...’ E aí, meu irmão, lá vai o dedão procurando localizar a tal próstata, foi rápido, mas parecia uma eternidade, saí de lá andando meio torto e achando que gay é macho pra caramba, amigo”.
Luiz Esteves, que já é freguês de carteirinha do urologista, entrou na conversa e mandou ver: “Olha, gente, essa de levar o dedão causa arrepios em nós homens, ainda mais numa sociedade machista em que vivemos, mas não temos como fugir dessa parada indigesta. Tenho amigos que já passaram dos cinquenta e ainda não foram visitar o homem de branco, tudo por causa do tal dedão, preconceito, falta de coragem ou os dois”.
E prosseguiu: “Eu mesmo sempre adiava minha dedada, até que me veio a notícia de que um amigo de serviço estava com problemas na próstata, bem ali na zona do agrião, daí enchi-me de coragem e lá fui eu... Lembro-me como se fosse hoje do tempo em que passei ali na sala de espera, tinha uns oito na minha frente e ninguém tocava no assunto, eu olhava no rosto de cada um e via neles somente aquela aparência apreensiva, mesmo os que já eram clientes antigos não consegui­am disfarçar o incômodo que antecedia aqueles momentos”.
Marcelinho lembrou-se de uma charge que rola na internet, tem uns seis ou sete na sala de espera, quando o médico abre a porta saí um cliente com a mão na bunda e o doutor, um cara enorme com uma mão maior ainda, pergunta: “Quem é o próximo????” Ninguém levanta (kkkkk).
Adalberto, querendo tirar uma, disse: “O perigo do dedão é se apaixonar pelo doutor.” E a conversa foi rolando e Eduardo, também quarentão, disse:  “Aconselho os mais afoitos que, quando forem levar o dedão, que façam como disse a Marta Suplici... ‘Quando o estupro for inevitável, relaxe e goze’.”
Atair, sogro do Tony, apareceu de repente, mas nada falava até que Carlos lhe perguntou: “E, você Atair, já levou o dedão???” O velho boiadeiro, que tem mais de setenta, respondeu: “Sai fora, caboclo, já amansei cavalo bravo, já montei em touro valente e já toquei muitas boiadas por este Brasil afora, nunca levei e nunca vou levar esse tal dedão...” Ai foi uma festa de risadas. Se chegar a sua hora de levar o dedão, não esquenta, tudo na vida tem a primeira vez. Boa sorte...
* Cantor e compositor

Garçom e músico são parceiros...

Bueno *
buenocantor@terra.com.br
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Se tem um assunto que gosto de lembrar e escrever, é sobre garçons e músicos. Vi tantas situações envolvendo esta parceria que vou te contar. Acompanho o talentoso músico João Chaim postando pequenas histórias no Facebook, todas carregadinhas de um humor que muito me divertem. Hoje tem até um bar em que a classe dos garçons se reúne após a noite trabalhada, rola um forró da hora para eles balançarem o esqueleto e muitos saem de lá com o sol a pino.
Lembrei-me de uma passagem vivida por mim, Gersinho, que era meu percussionista, e o garçom China, na choperia Degraus, que hoje não mais existe, mas 20 anos atrás ela reinava ali na avenida Treze de Maio. Nós comentávamos que aquela região parecia o Rio de Janeiro, muito samba, bicheiros, gente bonita enfeitava o pedaço, só faltava a praia do outro lado.
Ela abrigava 22 bares, todos com música ao vivo, era uma loucura. Nessa época a fiscalização não era tão rígida e permitia que os veículos estacionassem no canteiro central. Dá pra imaginar como ficava aquela parte da cidade?
Zé Carlos, dono do Degraus, empresário superantenado, sacando que poderia movimentar de forma alegre as tardes de domingo, contratou-me para cantar só samba, e como samba era do meu metiê, lá fui eu esquentar as domingueiras do Degraus. A novidade atraiu muitos músicos que me acompanhavam sem compromisso, apenas pelo prazer de dar uma canja.
O palco ficava no fundo do salão e dali tínhamos uma visão privilegiada de todo o bar, da rua e do canteiro central. Num lindo domingo de sol, vi quando encostou, bem na esquina, uma reluzente Mercedes preta. Dela saíram dois homens com duas mulatas daquelas que não estão no mapa, como dizia o saudoso Sargentelli, especialista em ziriguidum.
Os caras entraram, sentaram de costas pra parede e de frente pra rua, de maneira que viam todo o movimento. Os dois homens estavam na faixa dos 30, elegantemente trajados, correntes de ouro nos pulsos e pescoços, anéis enormes nos dedos, era impossível passarem despercebidos... As gatas, bem mais novas, também esbanjavam charme.
Eu estava cantando uma seleção de sambas do João Nogueira e percebi que nossos novos visitantes gostaram, até batucaram na mesa. China, o garçom, atendeu-lhes. De cara mandaram para todos os músicos uma rodada de chope, e nós, claro, adoramos.
No intervalo, fui até a mesa deles que, na maior simpatia, disseram ser do Rio de Janeiro, eram portelenses de carteirinha, tocavam na bateria da escola e adoraram o bar. Até pediram mais João Nogueira e Paulinho da Viola. Quando voltava para o palco, China, todo feliz, disse que os caras tinham lhe dado uma caixinha antecipada, maior que seu salário do mês. Fizeram amizade com duas mesas vizinhas e disseram ao China que pagariam a conta delas, meu!!!
Os caras caíram na graça de todos ao redor. Depois de tomarem alguns chopes, subiram no palco comigo, tocaram tam­bo­rim e pandeiro, dando mais molho ao nosso samba. Depois nos juntamos na mesa deles, fizemos fotos e foi aquela festa.
Encerrei minha participação, despedi-me deles e fui pra casa. À noite, estava confortavelmente em minha poltrona vendo o Fantástico quando anunciaram que a poíicia carioca estava à procura de dois perigosos traficantes do Morro do Juramento, e ao mostrar as fotos deles quase caí duro...Eram os caras que estavam no bar à tarde, meu!!! Que susto!!!
O fato passou a ser o comentário da semana ali no Degraus, cruzo sempre com o China e lembramos este fato com muitas risadas...
* Cantor e compositor