sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Herói? Herói foi meu pai

Bueno *
Faz algum tempo, fui cantar na cidade de Barbacena, em Minas Gerais, bem longe da minha querida Ribeirão Preto, acho que quase 500 quilômetros. Era sábado, véspera do Dia dos Pais. Amanheceu, fomos até São João Del Rei, uma cidade pequena, linda e histórica onde uma tradição é mantida: de sua antiga estação ferroviária parte uma linda maria-fumaça, um trenzinho muito charmoso todo pintado com detalhes tradicionais e que por doze quilômetros vai sacolejando, apitando e tocando seu estridente sino, por entre montanhas e paisagens cinematográficas que encantam o mundo todo. E assim segue até Tiradentes.
Chegamos na estação de São João Del Rei, a imponente maria-fumaça estava parada esperando o horário da partida. Eu olhava atentamente ela funcionando, tipo fazendo aquecimento, de repente um arrepio transitou pelo meu corpo todo. Olhei para o maquinista, estava na pequena porta com seu terninho azul marinho e seu quepe na cabeça, tudo como antigamente. Pedi autorização para fazer umas fotos com ele dentro da velha máquina. Como todo bom mineiro, educadamente ele atendeu meu pedido, entrei naquele pequeno espaço, fiz as fotos, depois fechei os olhos e como que por encanto, viajei para um tempo que levarei em meu coração para sempre.
Era o tempo em que meu velho pai pilotava sua maria-fumaça, era maquinista da Estrada de Ferro Mogiana, ~bateu a sensação de vê-lo soltando o freio da velha máquina, puxando a alavanca e colocando-a em movimento. Assim via os trilhos surgindo metro por metro, até sumir no horizonte. Meu velho pai também tinha um quepe com emblema da companhia, vivia sempre com pequenos furos causados por fagulhas que saiam da chaminé da sua barulhenta amiga.
Minha amada e saudosa mãe, todas as vezes em que meu pai chegava das viagens, lavava suas roupas, que também vinham com alguns furinhos. Depois de secas, passava linha na agulha e caprichosamente fechava furo por furo.
Meu pai se chamava Rosemiro Bueno, mas tinha um apelido que ele gostava e eu também: Rói, assim era chamado por onde passava, nem sei de onde tiraram este apelido, eu pensava ser dos gibis que lia, tinha um cowboy de nome Roy Rogers, daí associava meu velho com o herói em quadrinhos.
O velho Rói começou como ajudante de maquinista. Era ele que, com seus braços fortes, alimentava as fornalhas  – na época o trem era a vapor, tocado a lenha que ficava empilhada logo atrás. Eu, menino, tinha a maior admiração por meu pai, me lembro de que tinha quatro anos de idade quando ele foi transferido para a cidade de Cajuru.
Morávamos na colônia da companhia e a linha férrea passava a poucos metros da nossa casa, em frente a uma enorme caixa d’água que abastecia todos os trens. Alçi eu brincava com meu irmão Rubens, que apelidei de “Du” por ter dificuldade de pronunciar seu nome. Na época, Du estava com dois aninhos, mostrava pra ele nosso pai comandando a heroica maria-fumaça, que fazia muito barulho e soltava fumaça por todos os lados, dizia eu, todo orgulhoso, ao meu pequeno irmão:
“Du, é nosso pai que está ali dentro, é ele que faz este enorme trem andar”, dizia. E lá ia o velho Roi se distanciando, nos olhando, e antes que a maria-fumaça sumisse numa curva ao longe, nosso pai acenava e abanava seu quepe, voltando dias depois. A velha máquina era lenta e qualquer distancia, por mais perto que fosse, o retorno era demorado.
A vida seguiu e vieram modernas locomotivas, mas deste conforto meu velho pai pouco desfrutou, ficou doente e nos deixou faz muito tempo, tempo que nem percebi, pois o sinto sempre por perto e sei que de onde ele está, torce por mim. Meu pai criou seis filhos honestos. Vejo na TV algumas pessoas serem rotuladas de herói, daí lembro-me do velho Rói e falo baixinho só pra mim: “Herói? Herói foi meu pai.”
* Cantor e compositor


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Compadre Apolinário, saudades do amigo

Bueno *
Dia desses acordei, fiz minhas orações e de repente veio em minha mente a imagem do meu querido amigo Eurípedes Apolinário, radialista, apresentador de TV e responsável pelo sucesso de inúmeras duplas sertanejas. Mas, como diz outro querido amigo, Rolando Boldrin, Compadre Apolinário viajou antes do combinado, em 2 de maio passado fez dois anos que ele nos deixou. Sempre digo que Deus tem sido muito bom pra mim colocando em meu caminho pessoas maravilhosas e de coração puro, e Apolinário foi um deles.
Eu era guarda rodoviário, ele sempre parava comigo nas es­tradas e a gente batia aquele papo, sempre sobre música que é uma das minhas paixões. Num domingo, lembro-me bem, ele e sua caravana de artistas sertanejos regionais voltavam de um show na cidade de Pitangueiras e pararam na base da Polí­cia Rodoviária de Sertãozinho para uma água. Por acaso lá estava eu trabalhando.
Neste dia conheci os Irmãos Moreno, que durante a semana eram pedreiros, mas aos sábados e domingos aquelas mãos calejadas pelo árduo trabalho de amassar reboque carinhosamente abraçavam suas violas, e com perfeitas duas vozes, cantavam por aí o melhor de Tião Carreiro & Pardinho. Junto deles também estava André Bueno, um menino ainda de apenas nove anos de idade e que já tocava violão e acordeom e também cantava. Hoje um vitorioso empresário com seu maravilhoso estúdio, André fala de Apolinário com carinho e saudades também.
Apolinário tinha um programa na Rádio 79 que chamava “Afinando a Viola”. A audiência era tamanha que, naquela época, qualquer dupla, se quisesse alcançar sucesso, tinha que passar pelas mãos deste protetor e promotor de artistas. Com ele não tinha esse negócio do famigreado “jabá”, não, que é o responsável pelo sumiço de músicas de qualidade, tanto na área sertaneja quanto na MPB.
Nos dias de hoje, dois sujeitos lá de Goiás se juntam, gravam um CD, vestem uma roupa de grife, alguém banca, lotam um caminhão de dinheiro e despejam nas rádios, que tocam suas músicas dia e noite, fazendo assim a maior lavagem cerebral que já ouvi. Daí nossos jovens entram na onda e acontece de mais um lixo musical sufocar mais ainda a boa música.
Ao lado de um grande homem sempre está uma grande mulher e ele tinha esta mulher, Lina Dornela, que estava com ele pro que der e vier. Tiveram um filho, Thiago, hoje médico psiquiatra formado pela Universidade de Sâo Paulo (USP). Lembro-me bem do dia em que Thiago passou no vestibular, a alegria do radialista era tanta que contagiou a todos da Radio 79 e da TV Thathi, onde eu também tinha um programa, o“Canta Ribeirão”.
Apolinário também apresentava um programa na TV Re­cord de Franca e convidou-me pra cantar. Lá fui eu cantar “Pin­go D’água”, gravação de Tonico & Tinoco. Nesta noite che­gou também pra cantar uma jovem e desconhecida dupla de Brotas, era a primeira apresentação deles na TV, começava ali a carreira de João Paulo & Daniel. Mais uma vez, tinha que ser pelas mãos de Compadre Apolinário, que já havia alavancado as carreiras de Chitãozinho & Chororó – até hoje, em seus shows, fazem agradecimento ao velho apresentador –e de Leandro & Leonardo.
Fui visitá-lo numa tarde na Rádio 79 e o apanhei dando enorme risada. Estava com um LP de Milionário & José Rico nas mãos e ao me ver, disse: “Buenão, veja só a rima que o Zé Rico me arrumou... Quando acordei não te vi, que ‘desespeiro’, minhas lágrimas molharam a fronha do meu travesseiro”. Aí Zé Rico escorregou no português. Ri um bocado com ele, este “desespeiro” era a razão de seu riso. Foi sua criação também a Orquestra de Viola Caipira Mistura Boa, aqui em Ribeirão Preto, com o violeiro Augusto na batuta. É como disse o poeta: “O nome a obra imortaliza”. Meu querido amigo Eurípedes Apolinário, você deixou marcas...

* Cantor e compositor

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Almeirão com limão cravo

Bueno *
Vila Tibério, fui menino ali, poxa !!! Já vai longe esse tempo. Dia desses acordei meio que saudosista, daí comecei a rir feito uma criança quando faz uma arte e ninguém descobre o autor. Nessa onda abri a gaveta de minha memória, dei uma remexida bem lá no fundo e, de repente, me vi mais de 50 anos atrás, quando morava na rua Santo Amaro, na pequena Vila Amélia, que sempre digo pertencer à grande Vila Tibério.
Tudo que fazíamos era na famosa vila. Missa no Santuário Nossa Senhora do Rosário, cuja praça em sua frente chama-se Coração de Maria, praça esta que nas noites de sábado lotava de jovens. O lance era o seguinte: os homens ficavam parados e a moças rodavam por aqueles corredores ouvindo galanteios sem fim. Ali vi amigos iniciarem namoros, outros dando um fim.
Atrás da igreja rolava uma quermesse que era superfamosa na época, com seus correios elegantes e tudo mais. Aos domingos à noite o programa era o Cine Marrocos com suas filas homéricas, hoje ali é um banco. Poxa, o tempo voou.
Cheguei ali na velha rua Santo Amaro com onze anos de idade e saí com 22 para desbravar o Jardim Independência. Digo desbravar porque ninguém queria morar lá, era muito longe. Lá ainda moram um dos meus irmãos e três irmãs. Voltando ao “eu menino”, entre travessuras e coisas sérias acho que tive uma infância e uma juventude show de bola. Muito cedo meu velho pai conseguiu meu primeiro emprego, já com onze anos lá estava eu em uma oficina de bicicleta, onde aprendi todos os segredos da nossa famosa “magrela”.
Nesse tempo, eu amante do futebol e sem grana, quando o Botafogo jogava no Estádio Luiz Pereira, às quartas-feiras, lá ia eu com alguns amigos encarar o exercício de pular o muro, sempre pelos fundos. Esperávamos o time atacar e a torcida fazer aquele barulhão, daí o vigia corria até o alambrado para ver a jogada e era nesse momento que a gente pulava aquele alto muro. Num instante, como um corisco, estávamos na arquibancada, coisas de um tempo que adorei ter vivido.
Bateu saudades também do campo da Guanabara, que ficava pouco abaixo de casa. Lá vi grandes craques dando show. Nos finais de ano, os adultos organizavam uma disputa de solteiros contra casados e nós, moleques, armávamos um jogo de preto contra branco, era um tempo de pureza e ninguém pensava nesse tal de racismo tão em moda hoje, isso passava longe...
Nessa mesma época, via meu pai e minha mãe devorando uma travessa de alface ou almeirão – eu não comia nem a pau e só ficava imaginando os dois comendo mato. Numa de minhas férias escolares, era mês de julho, fui passar alguns dias na casa de minha tia e madrinha Cezira, na cidade de Casa Branca. Numa tarde, meu primo, da minha idade, inventou de passarmos a noite no sitio de seus tios próximo à cidade. Fui na maior alegria imaginando as surpresas da roça. Já no sitio, dei uma geral e vi que não tinha luz, era lamparina, e meu banho foi numa bica d’água que vinha de uma mina supergelada.
Eu, morrendo de fome, imaginava que no jantar viria um delicioso frango ou quem sabe uma leitoa assada. Nem bem sentamos e a tia de meu primo colocou na mesa arroz, feijão e de mistura... salada de almeirão temperada com limão cravo. Olhei, pensei um monte de coisas, mas senti que não poderia pipocar e mandei ver um prato daqueles de moleque. Resultado, me sai bem...Virei um devorador de saladas.
Hoje, aos domingos, quando vou à feira da Vila Tibério, na minha sacola não pode faltar o cheiroso e saboroso limão cravo, e por mais que tente não consigo dar à minha salada o mesmo sabor que senti naquela noite no sitio. Até hoje sinto na boca aquele sabor de almeirão com limão cravo.

* Cantor e compositor

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Tá faltando talento

Bueno *

Há alguns dias recebi um e-mail do meu querido e grande amigo Cleto, talentoso publicitário que também se aventura nas cordas de um cavaquinho. No tempo em que eu cantava no Restaurante Ponto Chic, ali na avenida Antonio e Helena Zerrener, na esquina com a rua Amapá, Cleto, frequentador assíduo, armava enorme mesa com amigos e famílias.
Eles jantavam, tomavam aquela cerveja no ponto e quando sentia-se no clima, Cleto retirava do estojo seu cavaquinho – dizia ter sido feito a mão por um artesão carioca. O apelido do instrumento era “Carioquinha”, é menor que os tradicionais, mas seu som era de se admirar.
Cleto se acomodava num canto do palco, abraçava seu pequenino parceiro, olhava pra mim e dizia: “Buenão, me dá um dó maior.”  Em seguida atacava com sua música preferida, “Carinhoso”, de Pixinguinha, com letra de João de Barro, o “Braguinha”. Eu o acompanhava com meu violão e meu parceiro Gercinho na timba.
Esta música foi escolhida como a canção do século, concorrendo com grandes clássicos brasileiros, ela ganhou de goleada. Pixinguinha a compôs em 1917 e sempre a tocava em suas apresentações. Por onde fazia shows, Braguinha, que na época era um jovem advogado, ia prestigiar e ouvir a música que tanto adorava, até que em 1931 pediu autorização ao músico para colocar letra em “Carinhoso”, que até então não tinha. Assim nasceu este clássico brasileiro.
Pois bem, no e-mail que Cleto me enviou, colocou toda sua indignação porque uma agência de publicidade deste nosso país usou sua música preferida para divulgar certa marca de carro, mudaram a letra enaltecendo a marca do veículo. Meu missivista até achou que os caras tiveram uma sacada legal, só não aprovou o fato de que mutilaram um clássico brasileiro, a letra da música.
Cleto foi até mais fundo dizendo que certas músicas brasileiras, como esta em apreço, deveriam ser tombadas como forma de proteção e que a canção “Carinhoso”, cuja letra é uma obra-prima, não poderia sofrer alteração, nem que fosse para uma situação como esta, que é apenas temporária. Disse ainda que os autores desta mutilação, aproveitando este oba-oba da Copa do Mundo em que tal propaganda foi veiculada, prestaram um desserviço ao Brasil, pois nossas crianças aprenderiam a música errada.
Finalizou dizendo: “Buenão, imagine você acordar numa bela manhã e, passeando pelo Centro da cidade, batesse de cara com nosso Theatro Pedro II com a fachada totalmente modificada por uma arquitetura linda, moderna, mas apagando todo seu passado histórico”.
Pois é, querido amigo Cleto, coloquei seu desabafo no papel e até concordo contigo, fico imaginando quem da família Bra­guinha autorizou esta mexida na letra, torço para que não aconteça mais com outras músicas históricas.
A história que contei de como “Carinhoso” foi composta vem esclarecer para muitos que não fazem ideia de como acontecem certas parcerias, e é por isso que em todos os encartes de antigos LPs e CDs o nome de quem faz a música vem sempre antes de quem faz a letra, como, por exemplo, “Detalhes”, de Roberto e Erasmo Carlos, “O bêbado e a equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, “Sentimental demais”, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim. A música nunca pode ser modificada, mas a letra sim, e assim segue o jogo...


* Cantor e compositor

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Por favor, cante ‘Honda’

Bueno *

Nesta minha crônica, vou dar umas pinceladas sobre as pérolas que, via garçons, chegam às mão dos cantores da noite. São pedidos de músicas de clientes, e muitas vezes o cara não sabe o nome da canção, escreve apenas pedaços da letra e às vezes o intérprete tem que ser adivinho.
Chegam em papéis de comanda, em guardanapos e até em bolachas de chope. Veja o titulo acima – “Por favor, cante ‘Honda’”. Na verdade, o cara quis dizer “Ronda”, e quem recebeu o aviso foi meu querido amigo Paulinho Brasília, um dos maiores cantores do Brasil. Ele também é compositor de gosto refinado, tenho um CD dele que não empresto pra ninguém porque não volta, sempre o revisito, sua obra é genial.
Neste bilhete o cara pedia a Paulinho para cantar uma das músicas mais requisitadas na noite, perdi a conta de quantas vezes a cantei, seu autor é o saudoso Paulo Vanzolini, cientista da USP, boêmio, compositor que não sabia nem tocar violão. Fazia as músicas trabalhando ou tomando cerveja, e quem as harmonizava era o também saudoso Adauto Santos, cantor das noites paulistanas.
Outra música que chegou em bilhete para Paulinho foi “Chão de gesso”, na verdade o solicitante quis dizer “Chão de giz”, de Zé Ramalho, essa até que dá pra associar, porque imagino ser do gesso que se tira o giz (rsrsrsr). Outra: “Por favor, cante um sambinha do Belchior”. Paulinho riu e até disse: “Belchior não canta nenhum samba, nem sambinha.”
Certa noite, o garçom sobe ao palco e entrega para Paulinho um guardanapo com um pedido que ele considera a campeã das pérolas: “Por favor, cante ‘No mandiocal’.” Paulinho pensou ser uma música sertaneja, e como nada canta dessa praia, segurou a onda. Passado algum tempo veio o mesmo pedido, Paulinho ignorou e o cara, inconformado, mandou outra vez: “Cante ‘No mandiocal’.”
Daí Paulinho passou a mão no microfone e perguntou de quem era o tal pedido. O cara se levantou, foi até o palco e nosso cantor, gentilmente, perguntou que música era essa que ele nunca tinha ouvido falar. O cara respondeu: “Mas como, Paulinho?!?! Você sempre a canta aqui.” Paulinho, indignado, disse: “Não pode ser, amigo, cante só um pedacinho, vou ver se identifico.” E o cara mandou ver: “No, no mandiocal.”
Paulinho teve um acesso de riso incontrolável, o sujeito não sacou o porquê, nosso artista precisou pedir intervalo até se recompor. Depois voltou ao palco e cantou “No woman no cray”, de Bob Marley, que Gilberto Gil canta em português –“Não, não chores mais”. Paulinho, meu amigo, você tem razão, essa é gol de placa.
Outra do Paulinho. O garçom lhe entrega um guardanapo com outro pedido musical, para cantar “Ao sair do avião”, de Djavan. Nosso cantor quase caiu do seu famoso banquinho lá do Bar Mania, riu um pouco e depois disse ao microfone: “Olha, esta música chama-se somente ‘Açaí’.” Na verdade, a cliente decorou um pedaço da letra e a adotou como se fosse seu nome, porque o refrão da música diz “açaí, guardiã”, e a moça entendia “ao sair, do avião...”
Essa quem me contou foi Beto Godoy. Ele havia gravado a música “Vida cigana”, que tocou muito nas nossas rádios FMs, e uma noite cantava num bar quando uma moça lhe mandou um bilhete dizendo: “Por favor, cante ‘Vida Cigana’, de Beto Godoy.” Ele riu um bocado e ela sequer imaginava que era o próprio autor quem estava ali.
Se você tem o hábito de ler minhas crônicas e noite dessas estiver num bar, ao ver o cantor rindo após receber um bilhete do garçom, na certa deve ser mais uma “pérola”.


* Cantor e compositor

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Saudades de Zé da Conceição

Bueno *

Dia desses, revisitando as fotos que tenho no meu “face”, parei – saudoso – diante de uma em especial, era de Zé da Conceição e seu sorriso largo – e olha que ele pouco sorria –, na cabeça um chapéu de feltro, vestia paletó e segurava na mão esquerda um violão. Olhando aquele instrumento em mágicas mãos, lembrei-me que, certa vez, eu estava numa festa e Zé da Conceição era a atração musical.
Em festa sempre tem aquele cara que quer dar uma canja, geralmente já tomou um monte e pouco está se lixando se der algum vexame. E aconteceu. Um mala cismou de querer cantar e tocar no violão de Zé da Conceição. Nosso músico morria de ciúmes de seu pinho, também era de pouca conversa, mas falou pro sujeito: “No meu violão só eu toco, se você quiser lhe acompanho, você pode cantar qualquer música”.
Mas o cara, inconformado com a negativa do nosso músico, armou o maior furdúncio. Daí pensei... “Isso vai dar barraco”. Antigos amigos do Zé da Conceição diziam que, se fosse nos velhos tempos, quando ainda bebia, o cara já teria levado uns catiripapos dos bons. Zé, com quase dois metros de altura, forte como um touro, mãos que pareciam ser de tudo, menos de tocador de violão, quando ficava bravo e com algumas doses de whisky na cabeça, deitava no chão um batalhão, mas na época da festa ele estava pianinho.
A coisa acalmou e Zé voltou a tocar. Daí o dono da festa, muito gentil e fã do grande músico, veio se desculpar pelo seu convidado. Foi quando nosso artista lhe disse: “Este violão, para pagá-lo, precisei passar muitas e muitas noites tocando sem levar dinheiro algum pra casa, só eu sei o quanto me custou, veja que o cara está chapado, se ele tropeça cai em cima do meu instrumento de trabalho e o quebra, como fico eu???”
Vi muitas vezes com que carinho e zelo ele tratava seu parceiro de música. A festa seguiu beleza. Um dia assisti a uma apresentação dele no Sesc Ribeirão, quando acabou fui abraçá-lo e ele disse: “Buenão, quero um chapéu seu de presente” Emendei: “Te dou, sim, Zé”. Até disse a ele que gostava muito do tipo “panamá”, e ele respondeu: “Pode ser este mesmo, Buenão, sabe como é... cavalo dado, não se olha os dentes”. Perguntei: “Qual o seu numero???”
E ele: “Pode ser o mesmo que o seu, vai dar certinho.” Percebi que Zé tinha um cabeção, mas fiquei quieto, fui no velho Mercadão onde compro meus chapéus e comprei-lhe um 59, meu número, ele provou e mal lhe cobriu o “cucoruco”, rimos muito e ele falou: “Nossa, Buenão, não sabia que eu tinha este baita cabeção.”
“Coisas da vida, Zé”, respondi. Depois ele foi lá na chapelaria, provou um monte e acabou saindo com este chapéu de feltro que está na foto – uso este modelo no inverno. Pereira, músico, foi tocar com Zé da Conceição no Sesc Bauru acompanhando uma cantora. Chegando lá, ouviram de um grupo de jovens o seguinte comentário: “Vamos embora que hoje vai ser pagode.”
Zé ouviu, ficou uma fera e chamou os caras. Pegou seu violão e deu o maior show, tocou até Beethoven, os caras ficaram de boca aberta, e Pereira completou: “Buenão, eu e o Zé, dois ‘negão’, os caras acharam que ia virar pagode...”
Outra história do Zé que Pereira conta e ri muito: Zé nunca tinha andado de escada rolante e certa vez foi pra São Paulo de ônibus. Já na rodoviária, ele com a mala numa das mãos e violão na outra, foi encarar a escada que leva todos ao andar superior. Pereira disse que ele tinha medo e ficou um tempão ensaiando como entrar na escada, até que levou um tranco do povo e lá foi ele suando em bicas e encarando a inimiga.
Ao chegar lá em cima, Zé colocou mala e o violão no chão pra respirar e enxugar seu suor, nem percebeu que a escada não parava. Aquela multidão chegando e aquele baita homão parado na saída, Zé levou aquele empurrão e lá foi violão, Zé e mala tudo rolando pelo chão, e o povo caindo em cima... fco imaginando a cena...
Zé da Conceição. Foi bom lembrar dele de uma forma alegre, tenho mais histórias deste querido amigo e grande músico pra contar, mas fica pra próxima


* Cantor e compositor

quinta-feira, 5 de junho de 2014

JOÃO NOGUEIRA

Uma homenagem ao poeta da calçada





Por Julio Cesar de Barros

João Batista Nogueira Júnior, o João Nogueira (12/11/1941-5/6/2000), cantor e compositor que se autodefinia como um sambista da calçada – como Noel Rosa - em contraponto aos sambistas do morro, morreu no dia 5 de junho de 2000, deixando uma legião de fãs de seu estilo muito pessoal de compor e cantar o samba e uma obra impecável. Talentoso e muito querido, ele emprestou seu nome a um centro cultural na sua cidade natal. No dia 8 de fevereiro de 2011, a prefeitura do Rio de Janeiro deu início às obras do espaço em sua homenagem, no local onde funciona a casa de espetáculos Imperator, um antigo cinema para 2 400 pessoas, que foi o maior da América Latina. No dia 12 de junho de 2012 a obra foi inaugurada com show para convidados e no dia 15 foi aberta ao público em geral. A prefeitura fez um investimento de 21 milhões de reais no prédio, que conta com salas de cinema, teatro, exposições, livraria e bistrô, além de um local exclusivo para guardar o acervo do artista. O prédio de três andares previa ainda um terraço verde de 1 200 metros quadrados com restaurante. O terreno, localizado no Méier - bairro onde João Nogueira nasceu, em 12 de novembro de 1941 - foi cedido pelo Estado em cerimônia da qual participaram o governador Sérgio Cabral, o prefeito Eduardo Paes, o cantor e compositor Diogo Nogueira, filho de João, e Ângela Maria Nogueira, sua viúva.

Filho de um advogado e violonista que tocava com a Velha Guarda do samba e com chorões de porte, João Nogueira começou a compor aos 15 anos, fazendo sambas para o bloco carnavalesco Labareda, do Méier, através do qual conheceu o músico Moacyr Silva, dirigente da gravadora Copacabana, que o ajudou a gravar o samba Espere, Ó Nega, em 1968. Mas ele apareceu na cena artística nacional quando no início dos anos 70 emplacou o sucesso Das 200 Pra Lá, samba que defendia a política de expansão de nossa fronteira marítima ao longo de 200 milhas da plataforma continental. O samba assumiu as primeiras posições das paradas na voz de Eliana Pittman e mereceu citação em reportagem da revista americana Time, pelo seu tom nacionalista afirmativo. Funcionário da Caixa Econômica, João se viu às voltas com certo patrulhamento, já que a bandeira das 200 milhas havia sido levantada pelo governo militar. "Pensaram que eu tinha virado Dom e Ravel", brincou ele mais tarde. Seu primeiro disco foi um compacto simples com Alô Madureira eMulher Valente. Em 1969 Elizeth Cardoso gravou seu Corrente de Aço, no disco Falou e Disse.

João Canta Do Jeiro que o Rei Mandou:
httpv://www.youtube.com/watch?v=CBSd3y8NuTg&feature=related

Mas o primeiro álbum, que levou seu nome no título, só veio em 1972, pela Odeon, selo pelo qual lançaria seus primeiros seis LPs. No disco, um clássico: Beto Navalha, regravado com grande força por Martinho da Vila, em 1973, no LP Origens. Mas a largada para valer de João Nogueira na carreira se deu em 1974, com seu segundo LP, E Lá Vou Eu, disco que chamou a atenção da crítica e do mercado para uma novidade no reino do samba. A começar pelas parcerias com Paulo César Pinheiro (E Lá Vou EuBatendo a Porta, Eu Hein, Rosa (esta regravada por Elis Regina com grande sucesso em 1979), Partido Rico  e o lírico Braço de Boneca), Zé Catimba, o genial compositor da Imperatriz, aparece em Do Jeito Que o Rei Mandou, e a irmã Gisa Nogueira em Meu Canto Sem PazEu Sei Portela. O disco resultou num show intimista em que o carioca se apresentou ao violão no Teatro 13 de Maio, em São Paulo, para uma platéia embevecida com a novidade.

João era diferente, não vinha do morro nem das escolas de samba, embora frequentasse a Portela desde criança, levado pelo pai, e não era o compositor de apartamento que fazia o ritmo popular, como Carlinhos Lyra, Tom Jobim e tantos outros. Se aproximava mais de Paulinho da Viola, com seu samba de varanda, som de subúrbios de casas avarandadas, de terreno antigo trilhado no choro e na seresta. Seu jeito de cantar era típico dos intérpretes do samba sincopado dos anos 40 e 50. Mas tinha personalidade. Como os velhos cantores, João brincava com a divisão, reinventando a síncopa. "É mais um João que veio diferente no cantar samba e fazer verso. É mais uma reza forte nas quebradas", disse dele o radialista e produtor Adelzon Alves, um grande impulsionador de seu início de carreira. Estava aberta a porteira pela qual João faria passar sua boiada. Em 1975, lançouVem Quem Tem, novo grande disco, no qual se destacou a homenagem que fez a Natal, o todo poderoso dirigente da Portela e bicheiro de Madureira, a quem dedicou O Homem de Um Braço Só.

Se no LP de 1974 ele reservara uma faixa para Noel Rosa, de quem gravou Gago Apaixonado, neste ele gravaria Não Tem Tradução, reverenciando mais uma vez o poeta da Vila, um dos três esteios de sua inspiração, ao lado de Geraldo Pereira e Wilson Batista, dos quais recebeu as influências que explicavam seu estilo de compor e cantar o samba – e aos quais dedicaria um LP inteiro (Wilson, Geraldo e Noel, 1981, Polygram). O disco, contudo, seria lembrado por outros sucessos, como Nó na Madeira (parceria com Eugênio Monteiro) e Mineira, uma homenagem a Clara Nunes, parceria com P. C. Pinheiro, o marido da cantora. O disco trazia ainda três parcerias com um jovem violonista de muito talento, que se revelava ótimo compositor, Cláudio Jorge, com quem assinou três faixas do disco (Samba da Bandola, Chorando Pelos Dedos e Pra fugir Nunca Mais). Ivor Lancelotti, de quem João gravara o lindo samba-canção De Rosas e Coisas Amigas, no disco de 1974, reaparecia comSeu Caminho Se Abre. Em 1979 ele introduziria o parceiro no show João Nogueira Apresenta Ivor Lancelotti. Quando Diogo Nogueira, seu filho, canta Espelho, faixa título do disco que João lançou em 1977, os jovens que formam sua legião de fãs imaginam que ele está falando do pai, nos versos que dizem “Um dia chutei mal e machuquei o dedo/ E sem ter mais o velho pra espantar o medo/ Foi mais uma vontade que ficou pra trás”. Afinal, Diogo foi jogador profissional de futebol, esporte que abandonou depois de sofrer uma séria contusão. Na verdade a letra da música é auto-biográfica, sim, mas de João, o pai, referindo-se ao avô de Diogo. O flamenguista João Nogueira foi também um boleiro frustrado por uma contusão.

Nos quatro primeiros discos que João lançou estavam dadas as linhas mestras do que seria sua carreira. E está contido o melhor do compositor, que um dia entrou no Portelão cantando “Hoje eu estou cheio de alegria/ E sou até capaz de me embriagar/ Uns amigos bambas neste dia/ Me convidaram a participar/ De uma escola de samba que é todo meu dengo/ De um terreiro de bambas que é todo meu mal/ Vou me livrar da tristeza/ E sambar na beleza do seu Carnaval”, samba de apresentação à ala dos compositores da Águia de Osvaldo Cruz, que o convidará a se juntar a seus bambas, em 1972. O namoro duraria até meados dos anos 80, quando João abandonou a escola, descontente com os rumos que o presidente Carlinhos Maracanã lhe impôs, e juntou-se a outros sambistas, herdeiros do velho Natal, para fundar, em 1984, a Tradição, escola para a qual compôs em parceria com P. C. Pinheiro os cinco primeiros sambas-enredo, de 1985 a 1989. Diogo, seu filho, é a reconciliação com a Portela, onde foi por quatro vezes vencedor do samba-enredo.

João canta Espelho:
httpv://www.youtube.com/watch?v=17qD-DULlTU

Em 1979, João fundou o Clube do Samba, com Alcione, Martinho da Vila e Beth Carvalho, entidade à qual dedicou o título de seu disco daquele ano, que trouxe novos sucessos, como Súplica Canto do Trabalhador (com P. C. Pinheiro). O clube, que no início funcionava em sua casa e que mais tarde lançou um bloco carnavalesco para desfilar na Avenida Rio Branco arrastando foliões saudosos dos velhos carnavais, funcionou em vários endereços, inclusive na Barra da Tijuca. Pelo seu palco passaram os grandes nomes do samba e compositores das escolas cariocas. Era frequente a programação reunir numa mesma noite gente do naipe de Ivone Lara, João Nogueira e Roberto Ribeiro, que um ano depois de sua morte foi homenageado pelo bloco no Carnaval. O próprio João, morto no ano 2000, seria homenageado no Carnaval seguinte com o tema “Como Diria João”.

Uma das músicas mais cantadas de João, uma espécie de hino dos compositores, foi o sucesso do disco de 1980, Boca do Povo. Trata-se de Poder da Criação (“Ninguém faz samba só porque prefere/ Força nenhuma no mundo interfere/ Sobre o poder da criação”), novamente com P. C. Pinheiro, seu parceiro mais constante, com quem acabou por lançar o CD Parceria, em 1994, no qual comemoravam 22 anos de composições conjuntas e mais de 50 obras compostas. "A gente senta junto e, quando levanta, está saindo um samba. Até mesmo sem querer", diria João. Nas dezessete faixas do CD, há uma homenagem a Clara Nunes, morta em 1983, nas faixas Um Ser de Luz As Forças da Natureza, de versos emocionados como As pragas e as ervas daninhas/ As armas e os homens do mal/ Vão desaparecer/ Nas cinzas de um Carnaval. João lançaria outros grandes discos, como o já citado em homenagem aos três grandes do samba, Wilson, Geraldo, Noel, seu nono álbum (1981), só com músicas dos três autores, dando descanso à parceria com P. C. Pinheiro.

João canta Nó na Madeira:
httpv://www.youtube.com/watch?v=iNyLMfsdDuU&feature=related

Ele seguiria lançando discos de qualidade (18 álbuns-solo no total) e participaria de discos coletivos, como Clara Nunes – Com Vida (1995), no qual dividiu as faixas com gente como Martinho da Vila, Roberto Ribeiro e Nana Caymmi. E Chico Buarque da Mangueira (1998), disco em homenagem ao compositor, que era enredo da escola naquele ano. Em 1995, com o maestro e pianista Marinho Boffa, João gravaria um CD só com músicas desse mesmo Chico Buarque de Hollanda, num trabalho de Almir Chediak com catorze canções, dentro da segunda edição do projeto Letra e Música. O disco foi lançado com um show no programa Seis e Meia do Teatro João Caetano. Ele participou também do disco Esquina do Samba, gravado ao vivo em 2000 no botequim Pirajá, em São Paulo, com Ivone Lara, Walter Alfaiate, Beth Carvalho, Moacyr Luz, Luiz Carlos da Vila e outros. No mesmo ano participou de um disco da Velha Guarda da Portela. Em 2009 foi çançado um DVD da participação de João Nogueira no programa Ensaio, da TV Cultura de São Paulo.

João Nogueira morreu na madrugada do dia 5 de junho de 2000, aos 58 anos, vítima de um infarto fulminante, em sua casa no Recreio dos Bandeirantes. João vinha sofrendo de problemas circulatórios que lhe haviam causado uma isquemia cerebral dois anos antes. Esteve internado em estado grave por um bom tempo, mas conseguiu se recuperar. Sofreu nova isquemia de menor impacto no início de 2000 e outra dois meses depois. Mas, sob observação médica, estava confiante, levava uma vida mais regrada, e ensaiava para shows que faria por aqueles dias, nos quais planejava apresentar trabalhos inéditos, além de sucessos de seu último álbum, João de Todos os Sambas, lançado em 1998 na quadra da Escola de Samba Acadêmicos da Rocinha, na favela que era homenageada no disco: "Junto ao mar/ Num morro que era ainda despovoado/ E dividia a Gávea e São Conrado/ Nasceu uma favela", dizia na faixa Rocinha. Foi uma perda grande para a cena musical brasileira. "Ele tinha uma forma de frasear muito própria. Não vejo seguidores dele. Creio que essa escola, cuja origem talvez tenha sido Ciro Monteiro, se acaba com a morte de João", lamentou Hermínio Bello de Carvalho. Todos sabiam de suas qualidades especiais de intérprete, mas João valorizava mesmo as composições. Só em 1999, quando recebeu o Troféu Eletrobras de MPB é que reconheceu seu canto. "Hoje estou adorando cantar. Antes, gostava que me vissem mais como compositor", disse. João deixou três filhos, entre eles Diogo, que pegou o bastão, não deixou a peteca cair e nos faz matar as saudades do pai, dada a semelhança física, vocal e a simpatia com que representa o melhor samba carioca.