sexta-feira, 6 de junho de 2014

Saudades de Zé da Conceição

Bueno *

Dia desses, revisitando as fotos que tenho no meu “face”, parei – saudoso – diante de uma em especial, era de Zé da Conceição e seu sorriso largo – e olha que ele pouco sorria –, na cabeça um chapéu de feltro, vestia paletó e segurava na mão esquerda um violão. Olhando aquele instrumento em mágicas mãos, lembrei-me que, certa vez, eu estava numa festa e Zé da Conceição era a atração musical.
Em festa sempre tem aquele cara que quer dar uma canja, geralmente já tomou um monte e pouco está se lixando se der algum vexame. E aconteceu. Um mala cismou de querer cantar e tocar no violão de Zé da Conceição. Nosso músico morria de ciúmes de seu pinho, também era de pouca conversa, mas falou pro sujeito: “No meu violão só eu toco, se você quiser lhe acompanho, você pode cantar qualquer música”.
Mas o cara, inconformado com a negativa do nosso músico, armou o maior furdúncio. Daí pensei... “Isso vai dar barraco”. Antigos amigos do Zé da Conceição diziam que, se fosse nos velhos tempos, quando ainda bebia, o cara já teria levado uns catiripapos dos bons. Zé, com quase dois metros de altura, forte como um touro, mãos que pareciam ser de tudo, menos de tocador de violão, quando ficava bravo e com algumas doses de whisky na cabeça, deitava no chão um batalhão, mas na época da festa ele estava pianinho.
A coisa acalmou e Zé voltou a tocar. Daí o dono da festa, muito gentil e fã do grande músico, veio se desculpar pelo seu convidado. Foi quando nosso artista lhe disse: “Este violão, para pagá-lo, precisei passar muitas e muitas noites tocando sem levar dinheiro algum pra casa, só eu sei o quanto me custou, veja que o cara está chapado, se ele tropeça cai em cima do meu instrumento de trabalho e o quebra, como fico eu???”
Vi muitas vezes com que carinho e zelo ele tratava seu parceiro de música. A festa seguiu beleza. Um dia assisti a uma apresentação dele no Sesc Ribeirão, quando acabou fui abraçá-lo e ele disse: “Buenão, quero um chapéu seu de presente” Emendei: “Te dou, sim, Zé”. Até disse a ele que gostava muito do tipo “panamá”, e ele respondeu: “Pode ser este mesmo, Buenão, sabe como é... cavalo dado, não se olha os dentes”. Perguntei: “Qual o seu numero???”
E ele: “Pode ser o mesmo que o seu, vai dar certinho.” Percebi que Zé tinha um cabeção, mas fiquei quieto, fui no velho Mercadão onde compro meus chapéus e comprei-lhe um 59, meu número, ele provou e mal lhe cobriu o “cucoruco”, rimos muito e ele falou: “Nossa, Buenão, não sabia que eu tinha este baita cabeção.”
“Coisas da vida, Zé”, respondi. Depois ele foi lá na chapelaria, provou um monte e acabou saindo com este chapéu de feltro que está na foto – uso este modelo no inverno. Pereira, músico, foi tocar com Zé da Conceição no Sesc Bauru acompanhando uma cantora. Chegando lá, ouviram de um grupo de jovens o seguinte comentário: “Vamos embora que hoje vai ser pagode.”
Zé ouviu, ficou uma fera e chamou os caras. Pegou seu violão e deu o maior show, tocou até Beethoven, os caras ficaram de boca aberta, e Pereira completou: “Buenão, eu e o Zé, dois ‘negão’, os caras acharam que ia virar pagode...”
Outra história do Zé que Pereira conta e ri muito: Zé nunca tinha andado de escada rolante e certa vez foi pra São Paulo de ônibus. Já na rodoviária, ele com a mala numa das mãos e violão na outra, foi encarar a escada que leva todos ao andar superior. Pereira disse que ele tinha medo e ficou um tempão ensaiando como entrar na escada, até que levou um tranco do povo e lá foi ele suando em bicas e encarando a inimiga.
Ao chegar lá em cima, Zé colocou mala e o violão no chão pra respirar e enxugar seu suor, nem percebeu que a escada não parava. Aquela multidão chegando e aquele baita homão parado na saída, Zé levou aquele empurrão e lá foi violão, Zé e mala tudo rolando pelo chão, e o povo caindo em cima... fco imaginando a cena...
Zé da Conceição. Foi bom lembrar dele de uma forma alegre, tenho mais histórias deste querido amigo e grande músico pra contar, mas fica pra próxima


* Cantor e compositor

quinta-feira, 5 de junho de 2014

JOÃO NOGUEIRA

Uma homenagem ao poeta da calçada





Por Julio Cesar de Barros

João Batista Nogueira Júnior, o João Nogueira (12/11/1941-5/6/2000), cantor e compositor que se autodefinia como um sambista da calçada – como Noel Rosa - em contraponto aos sambistas do morro, morreu no dia 5 de junho de 2000, deixando uma legião de fãs de seu estilo muito pessoal de compor e cantar o samba e uma obra impecável. Talentoso e muito querido, ele emprestou seu nome a um centro cultural na sua cidade natal. No dia 8 de fevereiro de 2011, a prefeitura do Rio de Janeiro deu início às obras do espaço em sua homenagem, no local onde funciona a casa de espetáculos Imperator, um antigo cinema para 2 400 pessoas, que foi o maior da América Latina. No dia 12 de junho de 2012 a obra foi inaugurada com show para convidados e no dia 15 foi aberta ao público em geral. A prefeitura fez um investimento de 21 milhões de reais no prédio, que conta com salas de cinema, teatro, exposições, livraria e bistrô, além de um local exclusivo para guardar o acervo do artista. O prédio de três andares previa ainda um terraço verde de 1 200 metros quadrados com restaurante. O terreno, localizado no Méier - bairro onde João Nogueira nasceu, em 12 de novembro de 1941 - foi cedido pelo Estado em cerimônia da qual participaram o governador Sérgio Cabral, o prefeito Eduardo Paes, o cantor e compositor Diogo Nogueira, filho de João, e Ângela Maria Nogueira, sua viúva.

Filho de um advogado e violonista que tocava com a Velha Guarda do samba e com chorões de porte, João Nogueira começou a compor aos 15 anos, fazendo sambas para o bloco carnavalesco Labareda, do Méier, através do qual conheceu o músico Moacyr Silva, dirigente da gravadora Copacabana, que o ajudou a gravar o samba Espere, Ó Nega, em 1968. Mas ele apareceu na cena artística nacional quando no início dos anos 70 emplacou o sucesso Das 200 Pra Lá, samba que defendia a política de expansão de nossa fronteira marítima ao longo de 200 milhas da plataforma continental. O samba assumiu as primeiras posições das paradas na voz de Eliana Pittman e mereceu citação em reportagem da revista americana Time, pelo seu tom nacionalista afirmativo. Funcionário da Caixa Econômica, João se viu às voltas com certo patrulhamento, já que a bandeira das 200 milhas havia sido levantada pelo governo militar. "Pensaram que eu tinha virado Dom e Ravel", brincou ele mais tarde. Seu primeiro disco foi um compacto simples com Alô Madureira eMulher Valente. Em 1969 Elizeth Cardoso gravou seu Corrente de Aço, no disco Falou e Disse.

João Canta Do Jeiro que o Rei Mandou:
httpv://www.youtube.com/watch?v=CBSd3y8NuTg&feature=related

Mas o primeiro álbum, que levou seu nome no título, só veio em 1972, pela Odeon, selo pelo qual lançaria seus primeiros seis LPs. No disco, um clássico: Beto Navalha, regravado com grande força por Martinho da Vila, em 1973, no LP Origens. Mas a largada para valer de João Nogueira na carreira se deu em 1974, com seu segundo LP, E Lá Vou Eu, disco que chamou a atenção da crítica e do mercado para uma novidade no reino do samba. A começar pelas parcerias com Paulo César Pinheiro (E Lá Vou EuBatendo a Porta, Eu Hein, Rosa (esta regravada por Elis Regina com grande sucesso em 1979), Partido Rico  e o lírico Braço de Boneca), Zé Catimba, o genial compositor da Imperatriz, aparece em Do Jeito Que o Rei Mandou, e a irmã Gisa Nogueira em Meu Canto Sem PazEu Sei Portela. O disco resultou num show intimista em que o carioca se apresentou ao violão no Teatro 13 de Maio, em São Paulo, para uma platéia embevecida com a novidade.

João era diferente, não vinha do morro nem das escolas de samba, embora frequentasse a Portela desde criança, levado pelo pai, e não era o compositor de apartamento que fazia o ritmo popular, como Carlinhos Lyra, Tom Jobim e tantos outros. Se aproximava mais de Paulinho da Viola, com seu samba de varanda, som de subúrbios de casas avarandadas, de terreno antigo trilhado no choro e na seresta. Seu jeito de cantar era típico dos intérpretes do samba sincopado dos anos 40 e 50. Mas tinha personalidade. Como os velhos cantores, João brincava com a divisão, reinventando a síncopa. "É mais um João que veio diferente no cantar samba e fazer verso. É mais uma reza forte nas quebradas", disse dele o radialista e produtor Adelzon Alves, um grande impulsionador de seu início de carreira. Estava aberta a porteira pela qual João faria passar sua boiada. Em 1975, lançouVem Quem Tem, novo grande disco, no qual se destacou a homenagem que fez a Natal, o todo poderoso dirigente da Portela e bicheiro de Madureira, a quem dedicou O Homem de Um Braço Só.

Se no LP de 1974 ele reservara uma faixa para Noel Rosa, de quem gravou Gago Apaixonado, neste ele gravaria Não Tem Tradução, reverenciando mais uma vez o poeta da Vila, um dos três esteios de sua inspiração, ao lado de Geraldo Pereira e Wilson Batista, dos quais recebeu as influências que explicavam seu estilo de compor e cantar o samba – e aos quais dedicaria um LP inteiro (Wilson, Geraldo e Noel, 1981, Polygram). O disco, contudo, seria lembrado por outros sucessos, como Nó na Madeira (parceria com Eugênio Monteiro) e Mineira, uma homenagem a Clara Nunes, parceria com P. C. Pinheiro, o marido da cantora. O disco trazia ainda três parcerias com um jovem violonista de muito talento, que se revelava ótimo compositor, Cláudio Jorge, com quem assinou três faixas do disco (Samba da Bandola, Chorando Pelos Dedos e Pra fugir Nunca Mais). Ivor Lancelotti, de quem João gravara o lindo samba-canção De Rosas e Coisas Amigas, no disco de 1974, reaparecia comSeu Caminho Se Abre. Em 1979 ele introduziria o parceiro no show João Nogueira Apresenta Ivor Lancelotti. Quando Diogo Nogueira, seu filho, canta Espelho, faixa título do disco que João lançou em 1977, os jovens que formam sua legião de fãs imaginam que ele está falando do pai, nos versos que dizem “Um dia chutei mal e machuquei o dedo/ E sem ter mais o velho pra espantar o medo/ Foi mais uma vontade que ficou pra trás”. Afinal, Diogo foi jogador profissional de futebol, esporte que abandonou depois de sofrer uma séria contusão. Na verdade a letra da música é auto-biográfica, sim, mas de João, o pai, referindo-se ao avô de Diogo. O flamenguista João Nogueira foi também um boleiro frustrado por uma contusão.

Nos quatro primeiros discos que João lançou estavam dadas as linhas mestras do que seria sua carreira. E está contido o melhor do compositor, que um dia entrou no Portelão cantando “Hoje eu estou cheio de alegria/ E sou até capaz de me embriagar/ Uns amigos bambas neste dia/ Me convidaram a participar/ De uma escola de samba que é todo meu dengo/ De um terreiro de bambas que é todo meu mal/ Vou me livrar da tristeza/ E sambar na beleza do seu Carnaval”, samba de apresentação à ala dos compositores da Águia de Osvaldo Cruz, que o convidará a se juntar a seus bambas, em 1972. O namoro duraria até meados dos anos 80, quando João abandonou a escola, descontente com os rumos que o presidente Carlinhos Maracanã lhe impôs, e juntou-se a outros sambistas, herdeiros do velho Natal, para fundar, em 1984, a Tradição, escola para a qual compôs em parceria com P. C. Pinheiro os cinco primeiros sambas-enredo, de 1985 a 1989. Diogo, seu filho, é a reconciliação com a Portela, onde foi por quatro vezes vencedor do samba-enredo.

João canta Espelho:
httpv://www.youtube.com/watch?v=17qD-DULlTU

Em 1979, João fundou o Clube do Samba, com Alcione, Martinho da Vila e Beth Carvalho, entidade à qual dedicou o título de seu disco daquele ano, que trouxe novos sucessos, como Súplica Canto do Trabalhador (com P. C. Pinheiro). O clube, que no início funcionava em sua casa e que mais tarde lançou um bloco carnavalesco para desfilar na Avenida Rio Branco arrastando foliões saudosos dos velhos carnavais, funcionou em vários endereços, inclusive na Barra da Tijuca. Pelo seu palco passaram os grandes nomes do samba e compositores das escolas cariocas. Era frequente a programação reunir numa mesma noite gente do naipe de Ivone Lara, João Nogueira e Roberto Ribeiro, que um ano depois de sua morte foi homenageado pelo bloco no Carnaval. O próprio João, morto no ano 2000, seria homenageado no Carnaval seguinte com o tema “Como Diria João”.

Uma das músicas mais cantadas de João, uma espécie de hino dos compositores, foi o sucesso do disco de 1980, Boca do Povo. Trata-se de Poder da Criação (“Ninguém faz samba só porque prefere/ Força nenhuma no mundo interfere/ Sobre o poder da criação”), novamente com P. C. Pinheiro, seu parceiro mais constante, com quem acabou por lançar o CD Parceria, em 1994, no qual comemoravam 22 anos de composições conjuntas e mais de 50 obras compostas. "A gente senta junto e, quando levanta, está saindo um samba. Até mesmo sem querer", diria João. Nas dezessete faixas do CD, há uma homenagem a Clara Nunes, morta em 1983, nas faixas Um Ser de Luz As Forças da Natureza, de versos emocionados como As pragas e as ervas daninhas/ As armas e os homens do mal/ Vão desaparecer/ Nas cinzas de um Carnaval. João lançaria outros grandes discos, como o já citado em homenagem aos três grandes do samba, Wilson, Geraldo, Noel, seu nono álbum (1981), só com músicas dos três autores, dando descanso à parceria com P. C. Pinheiro.

João canta Nó na Madeira:
httpv://www.youtube.com/watch?v=iNyLMfsdDuU&feature=related

Ele seguiria lançando discos de qualidade (18 álbuns-solo no total) e participaria de discos coletivos, como Clara Nunes – Com Vida (1995), no qual dividiu as faixas com gente como Martinho da Vila, Roberto Ribeiro e Nana Caymmi. E Chico Buarque da Mangueira (1998), disco em homenagem ao compositor, que era enredo da escola naquele ano. Em 1995, com o maestro e pianista Marinho Boffa, João gravaria um CD só com músicas desse mesmo Chico Buarque de Hollanda, num trabalho de Almir Chediak com catorze canções, dentro da segunda edição do projeto Letra e Música. O disco foi lançado com um show no programa Seis e Meia do Teatro João Caetano. Ele participou também do disco Esquina do Samba, gravado ao vivo em 2000 no botequim Pirajá, em São Paulo, com Ivone Lara, Walter Alfaiate, Beth Carvalho, Moacyr Luz, Luiz Carlos da Vila e outros. No mesmo ano participou de um disco da Velha Guarda da Portela. Em 2009 foi çançado um DVD da participação de João Nogueira no programa Ensaio, da TV Cultura de São Paulo.

João Nogueira morreu na madrugada do dia 5 de junho de 2000, aos 58 anos, vítima de um infarto fulminante, em sua casa no Recreio dos Bandeirantes. João vinha sofrendo de problemas circulatórios que lhe haviam causado uma isquemia cerebral dois anos antes. Esteve internado em estado grave por um bom tempo, mas conseguiu se recuperar. Sofreu nova isquemia de menor impacto no início de 2000 e outra dois meses depois. Mas, sob observação médica, estava confiante, levava uma vida mais regrada, e ensaiava para shows que faria por aqueles dias, nos quais planejava apresentar trabalhos inéditos, além de sucessos de seu último álbum, João de Todos os Sambas, lançado em 1998 na quadra da Escola de Samba Acadêmicos da Rocinha, na favela que era homenageada no disco: "Junto ao mar/ Num morro que era ainda despovoado/ E dividia a Gávea e São Conrado/ Nasceu uma favela", dizia na faixa Rocinha. Foi uma perda grande para a cena musical brasileira. "Ele tinha uma forma de frasear muito própria. Não vejo seguidores dele. Creio que essa escola, cuja origem talvez tenha sido Ciro Monteiro, se acaba com a morte de João", lamentou Hermínio Bello de Carvalho. Todos sabiam de suas qualidades especiais de intérprete, mas João valorizava mesmo as composições. Só em 1999, quando recebeu o Troféu Eletrobras de MPB é que reconheceu seu canto. "Hoje estou adorando cantar. Antes, gostava que me vissem mais como compositor", disse. João deixou três filhos, entre eles Diogo, que pegou o bastão, não deixou a peteca cair e nos faz matar as saudades do pai, dada a semelhança física, vocal e a simpatia com que representa o melhor samba carioca.

sábado, 17 de maio de 2014

O ídolo, o fã e a decepção

Bueno *
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Se tem um lance em que transito com desenvoltura é a tal a relação ídolo-fã, até porque convivi por muitos anos com cantores brasileiros, cantando, tocando e até dividindo palco, nunca vi nenhum deles ignorar um fã. Aquele momento do contato pra muitos é o ápice, é único, é o admirador diante de seu ídolo...
No mesmo assunto, só que no campo futebolístico, passei muitos anos bem próximo a um ídolo mundial, Doutor Sócrates, e o que presenciei durante todo este tempo guardo com carinho na gaveta da minha memória.
Escrevo esta minha crônica indignado com o tratamento que jovens fãs estão tendo por parte de artistas internacionais. Li que a cantora Beyonce estava cobrando US$ 2,5 mil para fazer fotos com fãs. Parei, dei um tempo, voltei a ler pra ver se tal notícia procedia e vi que realmente estava escrito isso que reproduzo aqui. Pô, meu !!! US$ 2,5 mil pra fazer uma foto? Ee olha que não faltou candidato.
Semana passada, li novamente que outra cantora – de quem nunca ouvi falar, não sei o nome muito menos de que país é, até porque o que ela canta não é minha praia, vi apenas uma foto, que é jovem e raspa um lado da cabeça – também estava cobrando de fãs “brasileiros” uma senhora grana, R$ 800 para fazer fotos, e com um alerta: não era para se aproximar da artista.
Vi na internet um jovem que fez foto paga com ela, mantendo a distância, sempre policiada por assessores, e percebi o constrangimento do fã. Poxa!!! Aquele momento esperado por ele, sabe-se lá por quanto tempo, e recebe esse tipo de tratamento? Achei o fim, confesso que senti pena dele, seu rosto expressava a face de um verdadeiro babaca, acho que quando caiu a ficha arrependeu-se amargamente, daí a decepção.
A maioria dos cantores veio de uma infância de poucos recursos, até que um dia, Deus coloca a mão em seus ombros e lhes assopra no ouvido: Agora é sua vez, vá, cumpra sua missão, deixe que sua voz ecoe por vales e montanhas, deixe que a brisa carregue em suas asas a doce melodia da alegria, da esperança, da emoção, faça pessoas felizes, você pode mudar a vida de muitos, basta que você leve sua mensagem. Pena que poucos percebem.
Voltando a Sócrates, em 1999 estávamos gravando nossas músicas em São Paulo e, numa tarde, fomos fazer uma sessão de fotos para a capa do nosso CD. O local escolhido era um estúdio tipo ateliê, muito lindo. Assim que descemos do carro, passou um motociclista que quando viu Sócrates, deu o maior grito... “Sócrates!!!” Sócrates parou para atendê-lo e o fã disse que seu sonho era conhecê-lo. O Doutor lhe deu a maior atenção, até falou porque estava ali. Despediu-se do jovem e entramos no estúdio.
Ficamos fazendo as fotos por umas duas ou três horas até que o porteiro veio até o Magrão e disse: “Doutor, tem lá fora umas quarenta pessoas esperando por você”. Sócrates falou: “Vamos lá”. E saiu. Fiquei um pouco distante vendo a reação das pessoas diante de seu querido ídolo, no meio estava o motociclista que muito feliz espalhou a notícia de que Sócrates estava ali. O Doutor fez fotos com todos, autografou revistas e camisas e a galera o tempo todo o rodeando, olha que foi difícil sairmos dali.
Entramos no carro e eu, admirado com este lindo assédio que em Ribeirão Preto ainda não tinha visto, disse: “Pôxa, Magrão, que cena maravilhosa acabo de ver, amigo, faz mais de dez anos que você parou de jogar e seus fãs parecem aumentar. Parabéns por tratá-los com tanto carinho.” Ee sorriu e sabiamente respondeu: “Buenão, você não pode destruir os sonhos de quem te cultua...”

* Cantor e compositor

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Idoso, quem quer ser?

Bueno *
buenocantor@terra.com.br
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Acho esse negocio de ser idoso o maior barato, pois estou com 66 anos e nem vi o tempo passar, talvez até porque não paro, estou sempre em processo de criação. Sempre fui assim, de ter várias atividades caminhando juntas. Nunca aprendi a escrever a máquina, achava que jamais precisaria, de repente me vi aposentado e como é um processo natural, a vida vai nos tirando algumas coisas, mas nos dá outras. E foi o que aconteceu comigo, comecei a escrever crônicas com um amigo teclando pra mim, uma vez que não tinha nenhuma habilidade com o computador, ia sacando como ele usava o word, e aquele processo de salvar e tudo mais, acabei me apaixonando pela máquina e hoje ela é uma companheira e tanto.
Às vezes cruzo com amigos do tempo de grupo escolar, do tempo ginasial, alguns estão no maior bagaço, daí me ponho a pensar: “será que eles me vêem da mesma forma como os estou vendo???” Ora, se vêem, não to nem aí, só sei que muitos não se cuidam, nada fazem para se ajudar, talvez um pouco de auto-estima pudesse fazer uma grande mudança, mas tem que sacar a parada.
Outras vezes pergunto a antigos amigos se eles têm e-mail ou faceboock, a grande maioria diz nem querer saber, daí discordo e até já mudei hábitos de alguns, acho que com tanta modernidade, não acompanhar pelo menos o básico, é isolar-se. Não sei se estou certo ou errado, mas sei que dou muito trabalho para meu filho Paulo Bueno nas coisas mais complicadas com meu notebook, mas ele tem a paciência e está sempre disposto a suprir essa minha falta de talento. assim vou vivendo e muito feliz da forma que levo a vida.
Dia desses, no estacionamento de um shopping lotado, eu estava tirando meu carro e um jovem deu uma volta para ocupar minha vaga. Quando ele se aproximava, um senhor aparentando uns 70 anos colocou o veículo dele na vaga, daí o jovem disse: “O vovô, coloque no lugar dos idosos, deixe esta vaga pra mim”. Várias vagas para idosos ficavam do lado e estavam vazias, mas o senhor, com um mau humor tipo do cantor Jamelão, respondeu com tudo:” Coloque lá você, quem te disse que eu sou idoso???” O rapaz até se desculpou, o idoso saiu e o moço me disse: “Essa eu não entendi”. Até falei: “este não aceita a idade.”
Das mais diversas vantagens que os idosos conquistaram, a que mais uso é o estacionamento, fila de idoso em supermercado nem pensar, só em último caso. Dia desses, num deles, entrei na maior roubada. A fila comum estava enorme, daí resolvi encarar a dos idosos, que estava bem pequena. A minha fila não saía do lugar, a outra ia de vento em popa. Depois é que saquei, as pessoas bem mais idosas têm dificuldade com cartões, localizar dinheiro na bolsa, embalar as compras...
Nesse dia até presenciei um bate-boca entre duas velhinhas com uma senhora bonitona que estava na frente delas. Aachavam que a moça não tinha 60 até que a bonitona estourou, dizendo: “Se estou aqui é porque tenho direito, não aparento idade porque não bebo, não fumo e meu marido cuida muito bem de mim.” Silêncio geral na fila.
Batendo papo com meu amigo Tião do Violão, ele saiu com essa: “Buenão, veja como é a vida, quando éramos jovens e solteiros, íamos para o Guarujá e voltávamos contando o maior papo, que descobrimos uma boate nova e coisa e tal. Depois a gente casa, vem os filhos, daí vai pra lá e volta dizendo: ‘descobri um restaurante que vou te contar’. E hoje, quando vamos pra lá, voltamos dizendo: ‘descobri uma farmácia que é show de bola...’” Caímos na risada!!! Esse Tião...
A maravilhosa atriz Fernanda Montenegro disse e eu adorei: “Quero envelhecer naturalmente, quero curtir cada nova ruga em meu rosto e lembrar o quanto foi difícil conquistá-las.”

* Cantor e compositor

Minha mãe, ô saudade!!!

Bueno *
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Faz dias que estou tentando encontrar uma forma para escrever sobre o Dia das Mães, e assim falar de minha saudosa mãe. Poxa, mas como encontrei dificuldade, sendo que a coisa mais fácil do mundo seria falar sobre ela. Isso acontece comigo no campo musical. Já compus músicas para meus filhos, meus netos, meu pai, minha esposa, mas a música de minha adorada mãezinha até hoje não consegui.
Não que não tenha tentado, até que fiz uma e quando ela estava quase que pronta, parei de compô-la, não a terminei por achar que minha mãe merecia uma música tipo assim, única, aquela que quando eu cantar terei a certeza que era pra ser dela, somente dela. Sou teimoso, vou fazê-la, a paciência e a esperança são minhas parceiras.
Mês passado foi aniversário de meu saudoso filho Lucas Bueno e quando na solidão de meu quarto escrevia sobre ele, teve vários momentos em que a emoção invadiu-me por inteiro. Num momento muito lindo, senti sua presença como se me abraçasse e com as mãos afagasse minha cabeça. Foi muito forte, lembrei-me do que ouvi do também o saudoso Tio João, discípulo de Chico Xavier. Disse ele numa palestra que quando sentíssemos saudades de um ente querido, bastava pensar nele com muita fé que imediatamente ele atenderia nosso pedido.
“Você vai senti-lo”, disse ele, e de fato o que o sábio falou é o que sinto quando penso em meu filho, um arrepio contagiante, leve como a brisa doce de um vento. Neste mesmo dia, ainda escrevendo, da mesma forma pensei em minha mãe e disse baixinho, como a  pedir colo: “Poxa, mãe, se você estivesse aqui...” E como num passe de mágica, novamente fiquei arrepiado e com a certeza de que ela atendera meu pedido.
Recebi recentemente um lindo e-mail com um pequeno vídeo em que uma mamãe passarinho alimentava seus filhotes, eram uns seis, todos com suas boquinhas abertas, pareciam famintos, percebia-se o cuidado da mamãe ao alimentá-los. Daí viajei no texto e nas imagens, danei a pensar, sabe-se lá a que distância ela foi buscar a “refeição”, e o quanto foi penoso chegar até seu lar e cumprir sua missão de ajudar a povoar matas e florestas.
Esta cena continua viva em minha memória e assim volto a minha infância, quando não sabíamos de onde vinha nosso alimento, só sabíamos que ele nunca nos faltou. Minha infância foi muito pobre, mas em nosso lar o amor transbordava por frestas e janelas, éramos meu pai, minha mãe e seis filhos, só depois de adulto é que me dei conta do que minha adorada mãe passou para nos alimentar. Tenho certeza que em muitas noites deixou de comer para que não nos faltasse. Eu, criança de sete, oito anos, nada percebia...
E hoje, já avô de dois netos maravilhosos, reviro minha memória em busca daquele tempo em que, aos domingos, nossa casa era uma festa, sempre teve música. Minha irmã Ruthe canta maravilhosamente bem, mamãe cuidava da cozinha com esmero, e desde o café da manhã, passado num coador de pano – seu aroma percorria todos os cômodos do nosso lar –, até nosso almoço nada se igualava, o tempero de minha mãe não tinha segredo, tinha era muito amor, daí seu inesquecível sabor.
Sinto saudades de tudo, do colo de minha mãe, da sua ternura, da sua doçura, de seus gestos, de seu sorriso cativante, do seu despedir quando a visitávamos... Sou um homem abençoado, pois tive o privilégio de ter sido seu filho. No jardim de meu coração, a flor mais linda é minha mãe, pois ela tem o nome da rainha das flores... Minha mãe se chama Rosa.

* Cantor e compositor

sexta-feira, 25 de abril de 2014

No tempo da delicadeza


Bueno *

Meu filho Lucas Bueno faria neste sábado, 26 de abril de 2014, 35 anos e um filme passa pela minha cabeça. Faço uma retrospectiva de todo o tempo que com ele vivi aqui na terra, dos grandes shows que junto fizemos, ele tocando seu piano... Eu o via como um dos maiores do mundo, ele arrasava, fechava os olhos e viajava na melodia como se estivesse em outro mundo, suas mãos deslizavam por sobre o teclado e a música agradecia, pois quem a tocava o fazia com muito amor, colocava ali todo seu sentimento e aprendizado com grandes mestres.
Tive este privilégio de  cantar sob sua batuta. Às vezes, num show surgia um imprevisto, mas bastava um simples olhar e a coisa fluía, ninguém percebia, ele era minha segurança, meu rumo norte. Tenho saudades loucas de tudo, até de nossas brigas às vésperas de um shows, brigas também resolvidas rapidamente. E o show acontecia lindo, lindo, lindo...
Desde o primeiro show juntos passei-lhe a responsabilidade da produção e direção e ele ficava orgulhoso de tais funções, dava conta da parada. Era Lucas quem escolhia os músicos que estariam com a gente no palco. Meu amigo Fagner disse um dia, no apartamento do Sócrates: “Buenão, procure manter em seus shows e gravações sempre o mesmo baterista, o mesmo baixista e pianista, desta maneira você tem a liberdade de escolher grandes músicos para outras funções”.
Passei isso para meu filhão e nunca tivemos problemas no palco, pois nossos músicos sempre correspondiam, de acordo com nosso projeto. Em agosto fará nove anos que Lucas está morando em outro plano.
O titulo da minha crônica de hoje é parte da letra da música “Todo o sentimento”, do sensacional maestro Cristovão Bastos. Chico Buarque colocou a letra – e que letra este compositor e poeta brasileiro escreveu para tão bela melodia.
Dentro do meu projeto de cantar vários nomes da música popular brasileira está “Bueno canta Chico Buarque”, e sempre que faço este show as mesas se esgotam rapidamente, daí posso ver o quanto Chico é importante para a cultura do nosso país, ele é querido por várias gerações, vejo isto do palco.
De todas as músicas do Chico que já interpretei, a que mais gostava de cantar é “Todo o sentimento”, eu a cantava só com voz e piano, piano tocado por Lucas Bueno, ele arrasava nesta música... Nunca mais a cantei em meus shows depois que Lucas se foi, com ele era especial, com outro não conseguiria cantá-la, até pelo meu estado emocional.
Sobre esta composição, um músico carioca me contou que Chico, ao escrever a letra, inspirou-se num amigo do maestro e parceiro Cristovão Bastos, que estava perdendo a esposa doentia. Eu e minha esposa a adotamos, fazemos de conta que ela foi feita pra nós, analiso cada frase, cada palavra escrita por Chico, sinto como se meu coração tivesse sido invadido, meus sentimentos escancarados, e olha que ele escreveu esta beleza décadas atrás!
Mas é tão presente pra mim e minha esposa, a letra toda é genial, mas me derreto todo na parte em que diz “depois de te perder, te encontro com certeza, talvez no tempo da delicadeza, onde não diremos nada, nada aconteceu, apenas seguirei como encantado ao lado seu”.
Nesse 24 de abril de 2014, chorei muito escrevendo esta crônica, coloquei para ouvir umas dez vezes esta música com Lucas ao piano e eu cantando num de nossos últimos shows... Poxa!!! Que saudade meu filho.
Lucas, meu filho, eu e mamãe te desejamos um feliz aniversário, com a certeza de nosso amor cada vez maior por você e o consolo de sabermos que um dia seguiremos como encantados ao lado seu. Ate mais, filhão.
Obrigado a Chico e Cristovão Bastos.


* Cantor e compositor

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Idoso, quem quer ser?

Bueno *

Acho esse negocio de ser idoso o maior barato, pois estou com 66 anos e nem vi o tempo passar, talvez até porque não paro, estou sempre em processo de criação. Sempre fui assim, de ter várias atividades caminhando juntas. Nunca aprendi a escrever a máquina, achava que jamais precisaria, de repente me vi aposentado e como é um processo natural, a vida vai nos tirando algumas coisas, mas nos dá outras. E foi o que aconteceu comigo, comecei a escrever crônicas com um amigo teclando pra mim, uma vez que não tinha nenhuma habilidade com o computador, ia sacando como ele usava o word, e aquele processo de salvar e tudo mais, acabei me apaixonando pela máquina e hoje ela é uma companheira e tanto.
Às vezes cruzo com amigos do tempo de grupo escolar, do tempo ginasial, alguns estão no maior bagaço, daí me ponho a pensar: “será que eles me vêem da mesma forma como os estou vendo???” Ora, se vêem, não to nem aí, só sei que muitos não se cuidam, nada fazem para se ajudar, talvez um pouco de auto-estima pudesse fazer uma grande mudança, mas tem que sacar a parada.
Outras vezes pergunto a antigos amigos se eles têm e-mail ou faceboock, a grande maioria diz nem querer saber, daí discordo e até já mudei hábitos de alguns, acho que com tanta modernidade, não acompanhar pelo menos o básico, é isolar-se. Não sei se estou certo ou errado, mas sei que dou muito trabalho para meu filho Paulo Bueno nas coisas mais complicadas com meu notebook, mas ele tem a paciência e está sempre disposto a suprir essa minha falta de talento. assim vou vivendo e muito feliz da forma que levo a vida.
Dia desses, no estacionamento de um shopping lotado, eu estava tirando meu carro e um jovem deu uma volta para ocupar minha vaga. Quando ele se aproximava, um senhor aparentando uns 70 anos colocou o veículo dele na vaga, daí o jovem disse: “O vovô, coloque no lugar dos idosos, deixe esta vaga pra mim”. Várias vagas para idosos ficavam do lado e estavam vazias, mas o senhor, com um mau humor tipo do cantor Jamelão, respondeu com tudo:” Coloque lá você, quem te disse que eu sou idoso???” O rapaz até se desculpou, o idoso saiu e o moço me disse: “Essa eu não entendi”. Até falei: “este não aceita a idade.”
Das mais diversas vantagens que os idosos conquistaram, a que mais uso é o estacionamento, fila de idoso em supermercado nem pensar, só em último caso. Dia desses, num deles, entrei na maior roubada. A fila comum estava enorme, daí resolvi encarar a dos idosos, que estava bem pequena. A minha fila não saía do lugar, a outra ia de vento em popa. Depois é que saquei, as pessoas bem mais idosas têm dificuldade com cartões, localizar dinheiro na bolsa, embalar as compras...
Nesse dia até presenciei um bate-boca entre duas velhinhas com uma senhora bonitona que estava na frente delas. Aachavam que a moça não tinha 60 até que a bonitona estourou, dizendo: “Se estou aqui é porque tenho direito, não aparento idade porque não bebo, não fumo e meu marido cuida muito bem de mim.” Silêncio geral na fila.
Batendo papo com meu amigo Tião do Violão, ele saiu com essa: “Buenão, veja como é a vida, quando éramos jovens e solteiros, íamos para o Guarujá e voltávamos contando o maior papo, que descobrimos uma boate nova e coisa e tal. Depois a gente casa, vem os filhos, daí vai pra lá e volta dizendo: ‘descobri um restaurante que vou te contar’. E hoje, quando vamos pra lá, voltamos dizendo: ‘descobri uma farmácia que é show de bola...’” Caímos na risada!!! Esse Tião...
A maravilhosa atriz Fernanda Montenegro disse e eu adorei: “Quero envelhecer naturalmente, quero curtir cada nova ruga em meu rosto e lembrar o quanto foi difícil conquistá-las.”

* Cantor e compositor