domingo, 6 de outubro de 2013

Bares da noite de Ribeirão, antes e depois!!!



 Avenida Nove de Julho esquina com Rua Garibaldi




 Está ao lado a UPA da Avenida Treze de Maio
 Ficava localizado na Rua Garibaldi, entre as Ruas Rui Barbosa e Campos Salles.
 Hoje é a área de lazer do edifício, que fica na esquina da Rua Rui Barbosa




sábado, 5 de outubro de 2013

Fez quarenta? Tá na hora de levar o dedão..

Bueno *
buenocantor@terra.com.br
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Não poderia escrever esta crônica sem antes consultar meu parceiro de serestas e boemias, Tião do Violão. Aproveitei para fazê-lo no último sábado, quando fomos fazer um samba na casa do Tony e da Elaine, que nos recepcionaram com muitas geladas e uma suculenta feijoada.
Na roda de bate-papo, aproveitei e tasquei a pergunta pro Tião: “Parceiro, quero que você me conte como foi sua primeira vez no urologista, como foi a dedada do doutor, não esconda nada porque vou colocar no papel...” Pego de surpresa, ele devolveu: “Pô, Buenão, para com issom cara.”
Emendei: “Não fuja da raia, não, Tião! Diga aí, meu velho.” Nes­sa altura Adalberto, Eduardo, Carlos, Marcelinho e Luiz Es­te­ves, todos com passagem “dedais” e mais que interes­sa­dos, passaram também a incentivar nosso seresteiro a comen­tar o acontecido. Tião, que já tinha tomado algumas, tratou de dei­­xar a timidez de lado e até passou a filosofar, se abrindo que nem paraquedas.
Disse ele: “Chegar aos quarenta, Buenão, até que é uma boa, mostra que chega a essa idade passou por fases das mais interessantes, fez todas as estripulias possíveis e impossíveis, mas tem lá seus revezes e acho que o pior que pode acontecer pra quem entra nessa idade é o tal de exame de próstata...”
E continuou: “Poxa!!! Que chatice, amigo. Minha primeira vez começou com o médico pedindo um exame de sangue, o tal de PSA. Resultado na mão, já no consultório, ele me mandou tirar a calça e deitar na maca, numa posição vexatória...”
Ele falava e a galera ali, na maior expectativa. “Daí o vi colocando luva e lambuzando o dedão de vaselina. Pensei: ‘Ainda bem que não é a seco...’ E aí, meu irmão, lá vai o dedão procurando localizar a tal próstata, foi rápido, mas parecia uma eternidade, saí de lá andando meio torto e achando que gay é macho pra caramba, amigo”.
Luiz Esteves, que já é freguês de carteirinha do urologista, entrou na conversa e mandou ver: “Olha, gente, essa de levar o dedão causa arrepios em nós homens, ainda mais numa sociedade machista em que vivemos, mas não temos como fugir dessa parada indigesta. Tenho amigos que já passaram dos cinquenta e ainda não foram visitar o homem de branco, tudo por causa do tal dedão, preconceito, falta de coragem ou os dois”.
E prosseguiu: “Eu mesmo sempre adiava minha dedada, até que me veio a notícia de que um amigo de serviço estava com problemas na próstata, bem ali na zona do agrião, daí enchi-me de coragem e lá fui eu... Lembro-me como se fosse hoje do tempo em que passei ali na sala de espera, tinha uns oito na minha frente e ninguém tocava no assunto, eu olhava no rosto de cada um e via neles somente aquela aparência apreensiva, mesmo os que já eram clientes antigos não consegui­am disfarçar o incômodo que antecedia aqueles momentos”.
Marcelinho lembrou-se de uma charge que rola na internet, tem uns seis ou sete na sala de espera, quando o médico abre a porta saí um cliente com a mão na bunda e o doutor, um cara enorme com uma mão maior ainda, pergunta: “Quem é o próximo????” Ninguém levanta (kkkkk).
Adalberto, querendo tirar uma, disse: “O perigo do dedão é se apaixonar pelo doutor.” E a conversa foi rolando e Eduardo, também quarentão, disse:  “Aconselho os mais afoitos que, quando forem levar o dedão, que façam como disse a Marta Suplici... ‘Quando o estupro for inevitável, relaxe e goze’.”
Atair, sogro do Tony, apareceu de repente, mas nada falava até que Carlos lhe perguntou: “E, você Atair, já levou o dedão???” O velho boiadeiro, que tem mais de setenta, respondeu: “Sai fora, caboclo, já amansei cavalo bravo, já montei em touro valente e já toquei muitas boiadas por este Brasil afora, nunca levei e nunca vou levar esse tal dedão...” Ai foi uma festa de risadas. Se chegar a sua hora de levar o dedão, não esquenta, tudo na vida tem a primeira vez. Boa sorte...
* Cantor e compositor

Garçom e músico são parceiros...

Bueno *
buenocantor@terra.com.br
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Se tem um assunto que gosto de lembrar e escrever, é sobre garçons e músicos. Vi tantas situações envolvendo esta parceria que vou te contar. Acompanho o talentoso músico João Chaim postando pequenas histórias no Facebook, todas carregadinhas de um humor que muito me divertem. Hoje tem até um bar em que a classe dos garçons se reúne após a noite trabalhada, rola um forró da hora para eles balançarem o esqueleto e muitos saem de lá com o sol a pino.
Lembrei-me de uma passagem vivida por mim, Gersinho, que era meu percussionista, e o garçom China, na choperia Degraus, que hoje não mais existe, mas 20 anos atrás ela reinava ali na avenida Treze de Maio. Nós comentávamos que aquela região parecia o Rio de Janeiro, muito samba, bicheiros, gente bonita enfeitava o pedaço, só faltava a praia do outro lado.
Ela abrigava 22 bares, todos com música ao vivo, era uma loucura. Nessa época a fiscalização não era tão rígida e permitia que os veículos estacionassem no canteiro central. Dá pra imaginar como ficava aquela parte da cidade?
Zé Carlos, dono do Degraus, empresário superantenado, sacando que poderia movimentar de forma alegre as tardes de domingo, contratou-me para cantar só samba, e como samba era do meu metiê, lá fui eu esquentar as domingueiras do Degraus. A novidade atraiu muitos músicos que me acompanhavam sem compromisso, apenas pelo prazer de dar uma canja.
O palco ficava no fundo do salão e dali tínhamos uma visão privilegiada de todo o bar, da rua e do canteiro central. Num lindo domingo de sol, vi quando encostou, bem na esquina, uma reluzente Mercedes preta. Dela saíram dois homens com duas mulatas daquelas que não estão no mapa, como dizia o saudoso Sargentelli, especialista em ziriguidum.
Os caras entraram, sentaram de costas pra parede e de frente pra rua, de maneira que viam todo o movimento. Os dois homens estavam na faixa dos 30, elegantemente trajados, correntes de ouro nos pulsos e pescoços, anéis enormes nos dedos, era impossível passarem despercebidos... As gatas, bem mais novas, também esbanjavam charme.
Eu estava cantando uma seleção de sambas do João Nogueira e percebi que nossos novos visitantes gostaram, até batucaram na mesa. China, o garçom, atendeu-lhes. De cara mandaram para todos os músicos uma rodada de chope, e nós, claro, adoramos.
No intervalo, fui até a mesa deles que, na maior simpatia, disseram ser do Rio de Janeiro, eram portelenses de carteirinha, tocavam na bateria da escola e adoraram o bar. Até pediram mais João Nogueira e Paulinho da Viola. Quando voltava para o palco, China, todo feliz, disse que os caras tinham lhe dado uma caixinha antecipada, maior que seu salário do mês. Fizeram amizade com duas mesas vizinhas e disseram ao China que pagariam a conta delas, meu!!!
Os caras caíram na graça de todos ao redor. Depois de tomarem alguns chopes, subiram no palco comigo, tocaram tam­bo­rim e pandeiro, dando mais molho ao nosso samba. Depois nos juntamos na mesa deles, fizemos fotos e foi aquela festa.
Encerrei minha participação, despedi-me deles e fui pra casa. À noite, estava confortavelmente em minha poltrona vendo o Fantástico quando anunciaram que a poíicia carioca estava à procura de dois perigosos traficantes do Morro do Juramento, e ao mostrar as fotos deles quase caí duro...Eram os caras que estavam no bar à tarde, meu!!! Que susto!!!
O fato passou a ser o comentário da semana ali no Degraus, cruzo sempre com o China e lembramos este fato com muitas risadas...
* Cantor e compositor


Dominguinhos, de volta pro seu aconchego

Bueno *
buenocantor@terra.com.br
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Quase todos os artistas em início de carreira sofrem muito, levam uma vida de muita luta atrás de seus sonhos, daí Deus escolhe alguns, coloca a mão em seus seus ombros e diz: “Agora é a vez de vocês”. Mas não avisa que eles têm um compromisso quando enriquecerem... Só precisam perceber.  Não é o caso da minha crônica de hoje, sobre Domin­guinhos, que ao longo de sua carreira a muitos ajudou e nem passava por sua cabeça que sua herança virasse briga de família.
O quiproquó envolve a filha dele, a cantora Liv Moraes, de Dominguinhos com Guadalupe, também cantora, e Mauro Moraes, filho de outro casamento do velho sanfoneiro. A briga vem de longe, desde sua internação no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Daqui da minha Ribeirão Preto acompanhava tudo até que, em 23 de julho, seu velho e sofrido corpo descansou para sempre, aos 72 anos.
A briga continuou com o filho querendo enterrá-lo no Rio de Janeiro e a filha, em Recife, até que uma emissora de televisão mostrou ao filho uma antiga gravação em que o pai fala de seu desejo de ser enterrado em Garanhuns (PE), sua cidade natal. Eu acreditava que o desejo do artista havia se realizado, até que, na semana passada, li que o corpo de Dominguinhos, que estava sepultado na cidade de Paulista, na grande Recife, ia ser desenterrado e removido para Garanhuns.
Daí fiquei indignado, aperreado, como dizia o velho músico, e acredito que ele, seja lá onde estiver, também está muito magoado. Para fazer o translado do corpo, o caixão teve que ser envolto com uma manta de alumínio porque, dois meses depois, ainda estava em decomposição, podendo haver vazamento. Houve escolta de batedores da Policia Rodoviária Federal em todo o trajeto, acompanhado de fãs e amigos.
Em Garanhuns, Dominguinhos ganhou um mausoléu, assim justificou a filha, o fato de ele ser enterrado provisoriamente em outra cidade: Garanhuns ainda não estava preparada para tão ilustre sepultamento. O prefeito baixou decreto mudando o nome da Praça Guadalajara para Praça Mestre Dominguinhos,. È ali que se concentram todos os grandes eventos da cidade, agora com uma enorme estátua do sanfoneiro.
No canal Brasil, na TV a cabo, vi seguidas vezes o documen­tário Milagres de Santa Luzia e, em todas as vezes, me emocionei, pois muito do que escrevi acima vi na tela. A parte de Dominguinhos é fantástica, principalmente quando ele, menino, tocava na feira de Garanhuns com uma sanfona meia boca. Por acaso, o velho sanfoneiro Luiz Gonzaga viu o garoto arretado no fole e percebeu ali um talento raro. Disse: “Menino... quando eu voltar aqui, vou lhe trazer uma sanfona profissional”.
O menino Dominguinhos quase caiu duro quando, alguns meses depois, Gonzagão cumpriu o prometido e até lhe deu seu endereço no Rio de Janeiro, convidando-o para tocarem juntos. Tempos depois, o menino músico, o pai e mais dois irmãos bateram na casa do artista que muito lhe ajudou.
Dominguinhos só andou de avião uma vez: de São Paulo para Recife, só que no caixão, pois em vida nunca tinha voado, morria de medo, viajava o Brasil de ponta a ponta em sua caminhonete cabine dupla
Músicos do naipe de Dominguinhos pra mim não morrem, se encantam. Dele canto varias composições, como Eu só quero um xodó e, entre outras, De volta pro aconchego, que é a razão desta minha escrita. Dominguinhos está de volta pro seu aconchego. Tomara que os filhos não mais o incomodem...
 
* Cantor e compositor

sábado, 14 de setembro de 2013

Barra do Una

Bueno *
buenocantor@terra.com.br
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Era bem no alto, rua Campos Sales 500, Barra do Una, um belíssimo edifício. Ali morava Sócrates com a família, na cobertura... Poxa!!! Quantas histórias vivi naquele pedaço de concreto que exalava cultura por todos os cantos. Havia telas que ele mesmo havia pintado e outras de Paulinho Camargo, artista plástico de Ribeirão Preto de quem Sócrates era fã. Tudo isso em meio de muitos livros, CDs e troféus que ele ganhara ao longo da carreira, alguns expostos, outros bem guardados.
Dali uma escada nos levava à cobertura, que ocupava toda a área, a piscina ficava numa parte mais elevada, churrasqueira não tinha, mas o dia em que ele cismava de armar um churrasco, como num passe de mágica, surgia uma. Um jardim en­fei­­tava os cantos de toda cobertura, crianças armavam uma pe­lada no enorme espaço na parte detrás, também um pequeno canteiro dava vida a algumas ervas e verduras.
Sócrates recebia muitas visitas ilustres e todas elogiavam sua morada. Lembro-me de um fim de tarde que avançou noite dentro, varando a madrugada. Estavam Juca Kfouri e José Luiz Datena com suas famílias, Jorge Kajuru com amigos, os filhos do Magrão e mais alguns amigos nossos. Era aquela alegria, essas personalidades contando histórias maravilhosas, sempre bem humoradas, fazendo a alegria de todos, e eu ali me deliciando com tudo, gravando na gaveta da minha memória.
Naquela noite estava muito calor, era mês de fevereiro, entre um causo e outro alguém me pedia para cantar e com prazer eu mandava ver. Num outro final de semana, Sócrates recebeu outro grande amigo dos tempos de boleiro, o lateral esquerdo do Corinthians, Wladimir, que veio com a família.
Vieram esposa e duas filhas, mas o filho Gabriel, na época jogador do Fluminense, não veio. Wladimir foi jogar em Orlândia com o máster do Timão e Sócrates pediu-me para esperá-lo no trevão da Anhanguera. Fui com prazer, afinal ele é meu ídolo. O craque, como sempre, era só simpatia. Ao entrarmos no elevador do prédio, uma moradora o reconheceu e contou a ele toda a admiração da família.
À noite, fomos numa festa de aniversário num prédio em frente ao Shopping Santa Úrsula. Sócrates disse que ia, mas que levaria uns amigos. O cara era inglês, casado com uma bra­sileira e estava de passagem por aqui. Quando viu em sua festa nossos famosos amigos, se derreteu todo em elogios. O inglês era superligado em futebol e samba, meu violão foi a tiracolo, fizemos lá grande cantoria.
Do Barra do Una até o local da festa são quatro quarteirões e fomos caminhando. Wladimir ficou meio cabreiro, mas nada comentou. Acabou o regabofe, hora de voltarmos e Wladimir perguntou ao Magrão: “Magro, nós vamos voltar a pé???” Magrão respondeu: “Claro, Wlad, é tão perto...” Wladimir perguntou: “Mas você não tem medo de assalto???” Sócrates disse: “Não, ainda não...” Dai Wladimir disse morar na Granja Viana, bairro nobre de São Paulo, e que noites atrás, saindo de casa, ao virar numa das ruas do bairro, do nada surgiram dois caras de arma em punho entrando na frente do carro, obrigando-o a parar e anunciando o assalto. Mesmo com todo nervosismo que invade qualquer um em situações assim, o lateral disse que sorriu pros caras e que foi prontamente reco­nhecido pelos bandidos. Um deles, surpreso, gritou: “Wladimir!!!! Você é meu ídolo... Você deu a maior alegria da minha vida em 1977, mano, você é nosso grande campeão... Tá limpo mano, tá liberado e se alguém mexer com você aqui, fale comigo que eu resolvo.”
Wladimir seguiu em frente. Disse que tremia tanto que mal conseguia engatar o carro. Outras histórias do Barra do Una tenho pra contar...
 
* Cantor e compositor

Ela não quer ser avó

Bueno *
buenocantor@terra.com.br
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Um amigo músico, de São Paulo, me ligou dizendo que seria avô pela primeira vez. Dei-lhe os parabéns avisando que ele entraria numa fase maravilhosa de sua vida, pela qual já passei duas vezes. Ele, meio que chateado, disse: “Buenão, em casa o bicho tá pegando porque minha mulher não quer ser avó”.
“O quê?! Ela não que ser avó?! Por que, amigo”, perguntei. “É, Buenão, ela entrou em crise, só chora, não quer sair de casa, tá se achando velha, dizendo que ser avó é coisa pra gente de idade mais avançada, de cabelos brancos e coisa e tal...”
“Que que é isso, amigão, diga a ela que os tempos mudaram com a velocidade da internet, tenho amigos e parentes que foram avós com 35, 40 e ela está entre os 40 e os 50. Te garanto que ela vai curtir muito mais os netos agora do que com certa idade, quando estiver sem pique.”
“Olha”, disse eu, “vou escrever algumas experiências que tive e tenho pra você mostrar a ela, quem sabe posso ajudar. “ E assim o fiz...
“Ser avô é ser pai com açúcar...” Esta frase está rodando na internet e ela me cabe perfeitamente, é a minha medida, pois sou um açucarado avô de dois netos, Luiz Roberto e Kauã, um com 17 e outro com três anos, e minha vida é adoçá-los de carinho, amor, de incentivo, aguçando neles a criatividade.
Como não conheci meus avós masculinos, cresci sem que meus lábios pronunciassem a palavra que não me canso de ouvir dos meus netos... “vovô”. Soa como música nos meus ouvidos, conheci apenas minhas duas avós, Maria e Francisca, convivi e as amava, mas não tive o prazer de ouvir do meu avô as histórias que hoje conto e que povoam a cabecinha de Kauã.
Como compositor, para Luiz Roberto fiz três músicas e para Kauã já fiz duas. Este é um grude comigo, adora fazer tudo que faço, sua vida é cantar e se imaginar num palco tocando algum instrumento. Veja essa: ele tinha dois anos e pouco e uma noite chegou em minha casa com os pais, meu violão estava fora do estojo e meu cavaquinho num canto, também sem sua capa. Pois ele o colocou na capa e eu só vendo aquela mãozinha e aqueles dedinhos tão frágeis tentando fechar o zíper. Com minha ajuda conseguiu.
Depois pegou meu violão e enfiou no estojo também, dei-lhe suporte, fechou as presilhas, eu vendo tudo e me deliciando. Daí ele pôs um de meus chapéus e, segurando o cavaquinho, fazendo-me pegar o violão, arrastou-me pela mão rumo à porta de saída, dizendo: “Vovô, vamos pro show”. preciso dizer que me derreti todo. Seu jeito ali era como o de um artista saindo para sua apresentação.
Tem dias que Kauã chega em minha casa super elétrico, aí, amigo, haja energia para acompanhá-lo. O  que ele mais gosta de fazer é montar um pequeno palco que, na sua cabecinha, imagino ganhar proporções gigantescas. Arma meu microfone, tira outro violão que tenho do suporte e coloca meu cavaquinho ali – ele diz ser seu violãozinho – e ali mesmo solta a voz. E é sempre a mesma canção, que canta repetidas vezes.
Outras vezes coloca meus violões lado a lado, no tapete da sala, perto de meu cavaquinho, e daí diz, apontando para os instrumentos: “Papai, mamãe e Kauã”. Outras vezes me faz construir uma cabana com cadeiras e lençóis e ali invado seus sonhos e sou criança com ele, daí brincamos muito. Quando ele se despede dizendo “tchau vovô”, é justamente naquele momento em que estou quase que jogando a toalha de cansaço. Após sua saída, a casa fica um silêncio só, fica um vazio, uma espécie de alívio, mas meu coração querendo mais e fica cheinho de desejo contando os dias em que ele virá novamente pra brincar de vovô comigo.
E assim vou vivendo minha deliciosa vida de avô, aproveito o máximo todos os momentos pois sei que é um presente de Deus, a vida voa e logo ele estará em outro estágio e não vai mais querer saber do avô, como já aconteceu com o mais velho, e que o coração deste vovô fica na torcida para seu sucesso profissional.
Mostre a ela, amigo, tomara que possa lhe ajudar.
 
* Cantor e compositor